Palavras do dia e da noite
Sábado, Novembro 30, 2002
Adorei o
Monk. Sempre tive uma queda por obssessivos. Passa todo o domingo, no USA, às 20h.
Ângela Broilo 3:17 PM
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BasílioEntendido em hardware, Basílio só era chamado quando nós, pobres mortais, não conseguíamos desvendar o mistério ou expulsar os vírus que chegavam sem avisar.
Basílio devia ter uns quarenta anos, barrigudo e estava ficando ficando calvo. Ele parecia nem perceber, porque o cabelo chegava desleixado até os ombros. Mas a principal característica: Basílio era gago, mais gago que um disco de vinil riscado. E quanto maior o problema, mais gago ele ficava.
- E aí, Basílio? É vírus?
- D-d-d-d-d-d-deixa, deixa comigo.
Passava um tempo.
- Então, é vírus?
- N-n-n-n-n-n-n-não, não sei.
- Como não sabe, Basílio? Eu preciso dessa máquina pra ontem! Pelo amor de Deus, não posso perder os arquivos...
- E o teu b-b-b-b-b-b backup?
- Ué, falávamos culpados, o vírus atacou na sexta-feira... Num deu tempo de fazer backup.
- E-e-e-e-e-e-e-então, então deixa comigo!
E lá ía o Basílio varrendo o computador à procura de vírus, encontrando defeitos no HD, testando peças, mil coisas. A gente ali.
- Olha que é vírus, Basílio!
- N-n-n-n-n-n-n-não, não é. É defeito no HD.
- Mas como? Não é possível dar defeito ao mesmo tempo em que o vírus chegou e não ser vírus...
- P-p-p-p-p-p-p-pode, poooooooode acontecer!
- P-p-p-p-p-p-puxa, Basílio! Que droga!
- C-c-c-c-c-c- calma.... V-v-v-v-v-vou, vou te c-c-c-c-c-contar uma his-his-história. T-t-t-t-t-t-tenho uma máquina lá no escritório que eu levei um ano pra montar. Tem 50 giga. Eu tinha 6000 arquivos de música em MP3. E, um belo dia, eles sumiram.
- E aí?
- N-n-n-n-n-não tem aí. Eles sumiram todos.
- Mas e então?....
- Então eles sumiram, ué!
- Pô, Basílio, continua a história.
- D-d-d-d-d-d-deixa, deixa comigo. Aí eu fiquei uma semana em cima. E nada de descobrir o que era...
- Humm.....
- Então nos reunimos em t-t-t-t-t-tre-três ent-tendidos no fim-de-semana e resolvemos que íamos encontrar o problema de qualquer jeito...
- E aí, e depois?
- C-c-c-c-c-c-como e aí? Aí re-re-re-resolvemos isso, ora...
- Humm... Putz, continua...
- Então eu d-d-d-d-d-descobri. Era a cinta que estava com problemas. Etc, etc... e os dados não p-p-p-p-passavam, etc.... I-i-i-i-imagina... uma cinta nunca dá problema... Ela até é envolvida em plástico, etc, etc.
- E os arquivos?
Aí ele fazia aquela cara de vencedor
- Tudo recuperado. Tu sabe, eu vendo CD com todos esses arquivos.
- Humm.
- Por 10 reais.
- Hu. E daí?
- Amanhã trago o teu.
- Como?
- O teu, trago amanhã. É dez reais.
- Mas, Basílio, eu não...
- E quanto ao teu HD, tem que trocar.
- Putz, não é só ajeitar aí, e depois passar o antivírus?...
- Não. Tem que trocar o HD. Tá com defeito. Não é vírus.
- Mas, porra, Basílio, eu vi quando o ¿Branca de Neve¿ chegou por e-mail. Que droga!
- É-é-é-é-é... mas teu HD foi pras c-c-c-c-c-c-cu-cucuias!!!
- Shit!
- Sh-sh-shit!
- Num vai botar música sertaneja no CD que eu te arrebento!
- Tá.
- E num põe Roberto Carlos, Sandy e Júnior e Djavan, pelo amor de Deus!
- E-e-e-e-e-e-e-eu num ía b-bo-tar esses mesmo! P-péra aí que eu vou fazer uma ligação. Dá pra pegar linha direto?
- Dá, disca o zero!
Aí ele ficava um tempo gaguejando com alguém do outro lado da linha. E quando desligava:
- O HD vai custar trezentos, o antivírus novo é oitenta. Tu não quer um CD com jogos? Tem um monte de jogos novos que tu não tem.
- Porra, Basílio, num quero CD de jogo nenhum. Quero minha máquina logo. E tá muito caro isso daí.
- Amanhã te trago o CD com os jogos. Mas esse é quinze.
- Num quero... Quiiiinze?
- Mas num era dez?
- Dez é o de música. O de jogos é quinze.
- Então não quero.
- Eu te faço por dez. Até amanhã.
- Mas...
Dia seguinte vinha o Basílio.
- T-t-t-t-t-trouxe, trouxe teus CDs.
- Basílio, e a minha máquina? Eu quero minha máquina, pô!
- A máquina só a semana que vem. O cara só chega do Paraguai na Terça.
- O queeeê? Tu vai colocar um HD do paraguai na minha máquina? Neeem pensar.
- Toma teu CDs. É vinte e cinco reais.
- Ah! Num é naum. Tu tinha feito por vinte!
- Tá bom.
- E o HD. Eu num quero ...
- D-d-d-d-d-d-deixa, deixa comigo. Se não funcionar eu troco.
- Mas eu não...
- Tchau, até Segunda. Por falar nisso, tu quer de volta teu HD antigo?
Putz!
Ângela Broilo 10:58 AM
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Sexta-feira, Novembro 29, 2002
Cláudio CaetanoO Cláudio Caetano morreu. Encontraram seu corpo no centro, encostado na parede de uma grande loja de departamentos. Jazia sobre uma cama de papelão, numa piscina de sangue.
Ele tinha 39 anos, era negro, dois dentes na boca e nenhuma ilusão. Vítima da vida, Cláudio também fazia suas vítimas na profissão, que cultivava cuidadosamente nas noites de Porto Alegre. Ele furtava rádio de carros e, às vezes, arrombava residências. Mas, quando o conheci, chegou como vítima. Apanhara da polícia. O saldo era o pulso quebrado, umas costelas fraturadas, um olho vazado. E o cheiro, meu Deus!... Cheiro que penetrava no ambiente, violava nosso olfato. Mas a figura me comovia. Não sei se era o rosto, o desespero dos olhos, a vocalização singular das palavras. Falava aos arrancos, como um animal acuado. Ele tinha medo, medo que vinha da culpa, da desesperança. Era um ser que inspirava horror. Tinha cara de mau. Os olhos sempre injetados, mas como brilhavam... Era a miséria em toda a sua glória. A miséria sem inocência, miséria que não inspirava compaixão. Acolhia a repulsa. A miséria e todos os seus vícios, presentes e futuros. Que belo quadro daria aquele rosto...
Só que a vida de Cláudio Caetano era um belo filme de terror. O mais aterrador. O terror cotidiano, o terror comum de uma história sem originalidade, aquela que acontece o tempo todo nas cercanias da cidade, nos cinturões da fome, o terror sem inspiração.
Aos nove anos, cansado de apanhar da mãe e do padrasto, Cláudio Caetano tentou se matar. Entrou no Guaíba na certeza de morrer afogado, já que não sabia nadar. Mas, ao sabor da fome, juntou-se o gosto do medo e seu corpo começou a nadar sozinho. Então matou sua infância, o padrasto e foi para a Febem.
Cláudio Caetano não tinha nem sombra de ternura. Só que algo suavizava naquele rosto embrutecido quando falava da Janete, a mulata esquálida que costumava espancar nas tardes de domingo e que já lhe dera quatro filhos, um morto. Ela tinha treze anos quando deixou de passar fome em casa para dividir a fome com o Cláudio Caetano. Naquele tempo, ele estava quase bem de vida, proprietário de um barraco na Vila Cachorro Sentado.
Os filhos... ele não sabia dizer a idade. Confundia seus nomes, suas realidades. Na verdade, os filhos o aborreciam. Eram corpos que necessitavam coisas que jamais poderia suprir. Coisas materiais, como alimento, roupas, escola, brinquedos... Coisas espirituais, como amor, amizade, afeto, compaixão... Coisas que nunca tivera e, sabia,... nunca teria. Mas ser humano que era conhecia sua existência, por puro instinto, pela própria necessidade. Melhor não soubesse de nada, melhor seria... E tinha consciência do fato.
A última vez em que vi o Cláudio Caetano com vida foi quando ele foi levado a fazer o reconhecimento dos policiais que o agrediram. Na ocasião, ele demonstrou coragem. Tinha um medo insano da polícia. Mas desta vez não era o medo do homem culpado e sim o medoda vítima. A perda do olho foi tão sentida que venceu a si mesmo e foi. Só que mostraram fotografias antigas. Impossível reconhecer os policiais bandidos. O último resquício de esperança no sistema se esvaía. Foi a partir daí que o Cláudio Caetano tomou novos rumos na profissão. Passou dos pequenos furtos para os roubos e os latrocínios.
Aquela sova - não que fosse a primeira - deu sede de sangue. Sangue em que se banhou inteiro antes de partir.
Ângela Broilo 9:12 PM
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Às vezes, eu me vejo assim.Cena 1Noite fria de sexta-feira.O Bar de Baco está cheio hoje. Minha mesa, perto da parede, no canto mais afastado do bar, está ocupada. Sento no balcão e peço uma tequila. Um facho de luz azulada ilumina a cantora. É Billie Holiday renascida no século XXI. Como se fosse uma dádiva, fico ali saboreando o blues.
Cena 2Tarde ensolarada de sexta-feira. Ufhhh! Que calor! Agora o Bar de Baco fica em Ipanema. Minha mesa, no canto mais afastado do bar, está vaga. Bebo uma cerveja gelada, enquanto observo os ocupantes de outra mesa. Um deles me fascina. Marcos Vinícius de Melo Moraes. Está sorrindo um sorriso bêbado, corpo jogado para trás, cadeira meio inclinada. Seus companheiros também riem e conversam. Tudo muito cotidiano. Aquela simplicidade perene. Amanhã é sábado e minha cerveja tem sabor de mar e... poesia. Pura bossa.
Ângela Broilo 8:29 PM
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