Palavras do dia e da noite
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Angel
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Sexta-feira, Janeiro 31, 2003
Gosto da imagem dos palhaços tristes. É uma coisa linda isso. Um paradoxo encantador. Não sei bem se é o palhaço ou paradoxo mesmo que me faz gostar dessa figura. A contradição, os conceitos incompatíveis, as opiniões incomuns me divertem. É como pimenta que arde e também agrada ao paladar. São coisas assim, aparentemente negativas, mas como há beleza nelas!... O mar batendo nas rochas é de uma violência indescritível e é belo por isso! Vi um quadro, certa vez, de uma mulher chorando: fiquei paralisada pela beleza. Andar de montanha russa, fazer rafting, assistir filmes de terror, lugares altos... quem gosta, como eu, tira uma satisfação intensa do medo. E tem o blues, os bares escuros, os becos, os sapos, os anti-heróis e certas imagens de pessoas tão infinitamente feias ou com um aspecto tão cruel que atraem meu olhar como para uma obra de arte. De certa forma, não deixa de ser mesmo, pelo inusitado. Por tudo isso, o mundo não é um lugar confortável para mim. Talvez a vida fosse mais leve se o convencional tivesse o poder de me convencer totalmente, se não me seduzissem tantas situações interessantes que exigem um certo desconforto, mas, posso apostar, experimentar a vida de outra maneira não seria tão delicioso como é assim.
por Ângela Broilo
10:42 PM
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Tem essas imagens que me acompanham. E eu as vejo como num filme. Entre elas, está essa rua molhada pela chuva. Os paralelepípedos brilham azulados. Porque há uma neblina azulada que envolve o todo. O céu cinzento. A chuva a pouco parou. Do lado direito, um prédio antigo que acompanha toda a extensão da rua. Ele tem dois andares só e é muito largo. Suas colunas avançam na calçada e suportam as sacadas do primeiro andar. Nestas, vê-se pequenas bandeiras sujas, algumas roupas molhadas e portas fechadas, janelas também. Na calçada, abaixo das sacadas, os transeuntes estão protegidos da chuva e do sol. Mas não há pessoas ali. Minto. Ao longe, no fim da rua, quase fundidos com a neblina, há dois ou três personagens indefinidos, caminhando para o nada. Em frente ao prédio, está essa árvore imensa, cuja copa atravessa a rua e quase atinge as janelas superiores do segundo andar. E a árvore domina a cena. Abre-se a porta do prédio e de lá sai um garotinho. Tem menos de cinco anos, é negro, está nu. E seu rosto é inexpressivo. Ele atravessa a rua, está indo em direção à árvore. Senta sobre a terra que a contorna. Então começa a arrancar a casca de seu caule, arranca com as unhas, mete-a na boca. Ele está comendo o casco da árvore. Depois de um tempo, outro garotinho sai do prédio. Este é branco e também está nu. Senta-se ao lado do garoto negro, mas não toma conhecimento dele. Passa também a arrancar a casca do caule e a metê-la na boca. Agora os dois mastigam a árvore. E eu tenho um desejo enorme de bater nos garotinhos esquálidos, porque sinto a mesma dor da árvore cada vez que seu caule é rasgado. E vejo a seiva, que escorre feito sangue. Como se percebessem que estou olhando para ela, ambos aproximam as boquinhas do caule, sugam a seiva. E eu ouço o lamento da árvore, um lamento gigante. E passa dia e noite, a neblina azulada esconde a luz do sol e pincela a escuridão noturna. A voracidade dos garotos não diminui. Eles nunca param. Não param nunca. E a dor da árvore vai aumentando até transformar-se na dor de todas as florestas do mundo. E ainda que sentindo essa mesma dor e tentando impedir a mim mesma, ainda assim, eu me aproximo da árvore, arranco um pedaço de seu caule e passo a comê-lo também. E não consigo mais parar. Mesmo querendo, não consigo parar. Quando olho para o lado, tentando buscar forças na neblina, em qualquer lugar, a boca com gosto de terra e madeira molhada, vejo que os garotinhos não estão mais ali. Agora há dois velhos nus, muito magros, os ossos quase perfurando a pele, um branco, outro negro. Estão exatamente na mesma posição dos garotinhos, arrancando e se alimentando do casco da árvore. E noto que seus corpos estão iluminados pelo brilho do sol. A neblina desapareceu. E a árvore mexe seus galhos para deixar o sol passar por entre a sombra. Agora é o sol que domina o ambiente. E há um vento seco, tão áspero que fica difícil respirar. E eu ainda quero parar, mas não posso. Os velhos continuam sempre. Ávidos. Agora faz calor, muito calor. E a cena se repete indefinidamente.
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Mais um presentinho lindo da Carla!
por Ângela Broilo
8:12 AM
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Quinta-feira, Janeiro 30, 2003
Amanhã, o preto pode virar branco. O branco já será azul. Amanhã são infinitas possibilidades e impossibilidades que podem ser ou nem ser. Não flerte com amanhã, não caia na sua conversa, esqueça que ele existe. Porque o amanhã, apesar de seus "as", é terrivelmente masculino, impiedoso, de uma crueldade incorrigível. O amanhã não ama, nem desama, não ri, nem chora. É frio como o gelo, não tem alma, nem carne, nem vida, nem morte. É pai dos vampiros, primo-irmão das assombrações, companheiro dos infelizes. O amanhã é o capeta. Porque mesmo em sua não-existência, tira de você o que você tem de melhor hoje. Evite o amanhã. Distribua seus beijos hoje, seus prazeres, suas lágrimas, seus amores, seus martírios. Hoje é seu amigo. Amanhã o mundo pode acabar.
por Ângela Broilo
4:40 AM
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Quarta-feira, Janeiro 29, 2003
Eu senti prazer em ver esses três caras batendo num outro, batendo pra valer, literalmente quebraram a cara dele, e ele saiu pingando sangue pela rua. Tudo isso em defesa de uma mulher. Nessas horas, a virilidade me encanta. A agressividade masculina me fascina. Eu achei a briga bonita. Nessas ocasiões, toda a minha formação e meus ideais de não-violência migram para uma dimensão paralela. Fiquei orgulhosa do meu povo sofrido. Corajoso. Que se levantou pra defender uma mulher. Ela estava numa cadeira de rodas. Velha, magra, a face amarelada. Quase confortável, quase satisfeita da vida, pegava um sol na calçada. Fazia isso todas as tardes. Acho que não vai fazer mais. O sujeito apanhou, foi impedido de praticar o assalto, mas, apesar da surra, ainda conseguiu roubar dela as tardes tranqüilas sob o sol do verão.
por Ângela Broilo
12:00 AM
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Terça-feira, Janeiro 28, 2003
Entre as imagens que me perseguem, tem essa parede, tão alta que vai ao infinito. É uma parede de cor incerta, não consigo perceber se é branca ou bege, se é negra, porque sempre está escuro quando ela surge. Vejo a parede do lado de fora de um lugar que pode ser qualquer lugar. Em volta é um gramado, árvores tortas, flores mortas, o cheiro da terra. Eu converso com a parede, conversas longas, e discuto o dia e a noite, a vida e a morte, e sobre a música que vou ouvir após o jantar. Ela fala comigo também, imensa em seus segredos. E me conta que a noite é triste e é bela em sua tristeza. E que o dia dói demais para ser bom. Imóvel a parede, suas palavras dançam em torno. E ela me fala que gostaria de ser surda e cega e viver só em seus pensamentos, que têm mil cores e nenhuma humanidade. Que abomina essa humanidade com todas as forças, porque o mal está no homem e o homem está para o mal assim como o concreto para a sua edificação. E que se pudesse esmagaria meu corpo com prazer homicida, para libertar o sangue de suas paredes de carne. E, às vezes, louca, alucinada, ela assovia o réquiem e roga pela chuva, que chora, lavando a tudo e a todos, e limpa-lhe a estrutura dos vestígios impuros de seu criador.
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Legal! Ganhei o award do Insanity! Valeu, RaMP!!

Ganhei tb o award o award da Girls News! Adorei, Giulia!
por Ângela Broilo
12:00 AM
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Segunda-feira, Janeiro 27, 2003
. Hoje comecei a postar também no Fly Away. Ele é novinho - começou hoje - e, por enquanto, tem quatro participantes. A borboletinha é o símbolo do blog.
por Ângela Broilo
6:55 PM
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Alegria, às vezes, tem que ser puxada pela mão. Insiste que ela vem. É uma convidada que chega sem avisar e, às vezes, quer sair na metade da festa. E, de vez em quando, sai mesmo. Se você deixar. Mas não se dê por vencido. Nunca. Alegria, se não quiser vir, você pode tomar à força. E, se fizer força mesmo, ela vem feliz. Porque se sabe querida. Seu maior desejo é se sentir admirada, aplaudida. Alegria é vaidosa, nada modesta, pode ser cheia de não-me-toques. Muitas vezes, é selvagem. E não é fácil mantê-la parada. Alegria precisa de movimento, novidades, amor, amizade, precisa ser constantemente alimentada. Dá trabalho cuidar da alegria. Trabalho para a vida inteira. No fundo, no fundo, é uma criança pedindo pra ser amada. Mas vale qualquer esforço, porque, quando ela está do seu lado, você não precisa de mais nada, nada mesmo.
por Ângela Broilo
8:04 AM
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Domingo, Janeiro 26, 2003
Olho meu rosto no espelho e vejo ali todas as sensações do mundo. E a mais intensa, a que predomina, a que trago, intrínseca, em cada célula viva, é a saudade. Meu rosto tem a carne esticada da juventude, mas vejo os anos passando e os sulcos da saudade percorrendo a pele macia, abrindo estradas, construindo pontes, edificando cidades aqui e ali, sem parar. Hoje, a saudade habita os olhos e confunde-se, azulada, com eles. A carne jovem é bela, mas tenho olhos sombrios que não vertem mais lágrimas, chovem saudades. Hoje são apenas os olhos, mas, dia após dia, ela conquista um novo porto no território do meu rosto, amanhã será o nariz, depois a testa, e tem os cílios, as sobrancelhas, ali atrás as orelhas, adiante o queixo, a boca, a língua. Saudade regendo sua orquestra com maestria inconfundível. O tom é leve. Mas avança sempre. Saudade, outrora estrangeira, invade espaços e se põe, como nativa, no conforto da pele nova. Saudade parasita do meu tempo. Eu vou vivendo, suportando seu peso. Ela me esmaga. Mas tenho força, uma força imensa e carrego a mim aviltada pela saudade e sei que carregarei mais se preciso for. Porque a saudade, fecunda da morte, ainda não tomou minha essência. Ainda não. Essa ainda vai pura e atenta e firme e certa nos caminhos incertos de cada dia.
por Ângela Broilo
5:10 AM
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Sábado, Janeiro 25, 2003
Das imagens que me perseguem, vejo um homem triste encostado na parede de um beco. É noite. Ele veste uma camiseta cinza e uma calça jeans toda esgaçada. Ele fuma e cada tragada é como se fosse a única. Tem um tronco muito magro, um rosto magro, as mãos magras. Nem sinal de limpeza em seu corpo. Os olhos escondem-se num rosto onde a barba escura cresce desordenada. Em torno, um bêbado agachado na calçada, duas crianças dormindo sob caixas de papelão. Um gato vadio espreitando alguma vítima invisível. E o cheiro de todo o lixo urbano que enfeita os caminhos sem saída. Adiante, a sucata de um carro cor de laranja, perene em seu abandono. Os prédios que envolvem o beco tem sua pintura coberta de fuligem, uma crosta de toda a sujeira do mundo e a desesperança. Por cinco segundos, nada se move, nem o homem nem o gato, e é como se o tempo parasse. Então ele traga mais uma vez, e as engrenagens da vida entram novamente em funcionamento. Se tivessem parado por ali, ninguém perceberia nada, porque esta também é uma imagem do nada que povoa a vida dos becos noturnos.
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Olha o presente que a Carla, do Presentinhos, mandou!
Esse ela fez pra todas as Ângelas. Ela está criando presentinhos com todos os nomes que existem! Vai lá e procura o seu!
por Ângela Broilo
12:09 AM
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Sexta-feira, Janeiro 24, 2003
Tem coisas que a gente precisa comemorar quando acontecem. O início de um novo amor, as novas amizades, a cura, o nascimento, os aniversários, um novo emprego, um tratado de paz. Tem coisas que doem quando acabam. O fim da vida, o fim do amor, o fim de um casamento, o fim da amizade, o fim das férias. O Bar de Baco acolhe as alegrias e as dores. É um porto seguro, aconchegante, discreto e tem um que de mistério envolvendo o ambiente que deixa todos os corações em paz. Você pode sentir com força suas mágoas e suas alegrias. Um não atrapalha o outro. Porque o Baco não é maternal. Não sofre por você, mas está sempre presente. Não vibra por você, mas está ali, imutável, com suas paredes de pedra, suas meias luzes, a lareira no inverno, o frescor no verão, o piano, a música, o barman e os fantasmas. E tem, ainda, algumas portas discretas , onde as Confrarias se reúnem periodicamente. Além das Confrarias, há ali um grupo de pessoas que aparece todas as sextas-feiras para um ritual de adoração a Baco. O Mark faz parte desse grupo. Só por isso fiquei sabendo que ele existe. Nas noites do ritual, você não percebe nenhuma mudança no Baco, é uma noite como outra qualquer do lado de fora daquela porta, lá de dentro, nenhum som, nenhum aroma, nenhum suspiro chega até você... O que lá ocorre... só os adoradores de Baco e o próprio Baco podem ver.
por Ângela Broilo
8:05 AM
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Quinta-feira, Janeiro 23, 2003
Assunto: sm (lat assumptu) 1. argumento, matéria, objeto, tema de que se trata.
Sem assunto: prep+sm (lat sine assumptu) 1. certa preguiça de pensar, que acomete blogueiros de vez em quando. 2. indolência, aversão ao trabalho, inação, moleza.
por Ângela Broilo
7:52 AM
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Houve um tempo em que minha vida era repleta de poesia. Eu pensava em poemas e meditava em frente ao mar. Mas, muito cedo, a prosa passou a dominar meus movimentos. E tomou conta de todos os espaços disponíveis. Se antes a poesia me perseguia, hoje eu tento seduzir a prosa. Que não se entrega fácil e incondicionalmente como a poesia. Ela é exigente e pede atenção constante. Se resta alguma poesia? Tem sim. Mas não busco por ela. Temo trair a prosa e que ela me abandone desconfiada e cheia de ciúmes.
por Ângela Broilo
7:50 AM
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Quarta-feira, Janeiro 22, 2003
Sábado eu não fui ao Bar de Baco. Estou sabendo por ouvir dizer. Foi a Sara que contou. Diz que o Velho poeta, freqüentador assíduo do Baco, trazia uma corrente no pescoço, da qual pendia uma pedra minúscula e singular, que lhe caia na altura do peito. E mostrava a quantos lhe apetecia, dizendo que era uma nebrita - a própria. Para quem não conhece, nebrita é a pedra preciosa consagrada a Baco. Até onde sabemos, nunca foi identificada. Ele teria ganho o colar de um amigo muito querido, que estava com os dias contados. O Velho estava feliz. Brindava com toda a gente. É que ele, na verdade, sempre cobiçou a nebrita. Seguido, o Velho tomava a pedra do amigo e ficava embevecido admirando-a, enquanto conversavam seus velhos assuntos. A Sara contou que o Velho muito se ofendeu quando o Mark, brincando, propôs comprar a nebrita. Com um olhar furioso, o Velho retrucou: - Você vende sua mulher? Todos riram. E foi então que a Sara percebeu: o Velho que, inobstante a poesia, nunca amou nada na vida, agora está totalmente apaixonado. E não dá pra mexer com o objeto da paixão alheia, sem sofrer conseqüências bastante desagradáveis. Talvez por esse motivo, instintivamente, ninguém ousou contestar a sinceridade daquele objeto, mesmo que fosse um engano ou, muito provavelmente, uma imensa piada, pois a nebrita, se existiu, há muito se encontra perdida. De minha parte, torço para que o Velho nunca perceba tamanha enganação e , por Baco, que ele confie na nebrita até o fim de seus dias. Porque paixão vira amor e estou pra ver coisa mais linda que um primeiro amor.
por Ângela Broilo
8:01 AM
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Terça-feira, Janeiro 21, 2003
Para alguns freqüentadores, não todos, o Bar de Baco serve o vinho da casa. O rótulo das garrafas não informa a safra, a graduação alcoólica, o fabricante, a uva com que foi feito. Essa você tem que adivinhar pelo sabor. É um vinho maravilhoso, encorpado, com aroma celestial. É antigo também. Se você tem o privilégio de ser servido com esse vinho, é porque você é uma pessoa suficientemente educada para não fazer perguntas, você bebe em silêncio, você vibra em silêncio, qualquer palavra estragaria aquele momento mágico, consagrado a Baco. Fora dali, fala-se sobre o vinho. Com discrição embora. Porque se você teve esse privilégio, é certo que você é uma pessoa discreta. Isso é natural em você. Nesses comentários sussurrados, já ouvi de tudo, até que o vinho é feito no interior do Rio Grande do Sul, em uma vinícola fantasma. Mas a conversa que me fascina é aquela de que o vinho é feito na Grécia, com uvas de uma videira tão antiga que foi abençoada por Baco. É uma videira imortal. A ela, só os seguidores de Baco tem acesso. E são tão poucos no mundo atual... Pode não ser verdade. Mas e se fosse? Quem sorve um golinho que seja daquele vinho acaba sempre pensando assim.
por Ângela Broilo
8:00 AM
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Segunda-feira, Janeiro 20, 2003
Todo mundo um dia acreditou em magia. Nem que fosse a singela magia de viver. Mas tem um tempo em que você deixa de acreditar. Pelas circunstâncias, pelas situações, por tudo, por nada. É um tempo duro esse, quando parece que seus momentos perderam o brilho, quando você compreende todo o artifício dos fogos que já povoaram as suas noites. É um tempo árido, você vive no deserto e não tem miragens para aliviar o nada. Uns se perdem ali mesmo. E seu estado é o não buscar mais. Os mortos-vivos. Mas há ainda aqueles que percebem. O que pensavam fosse magia era a simples ilusão do querer. A verdadeira magia nasce a partir de então. Você é apresentado a ela. Ela a você. E percebe que ela existe gloriosa. Mas é impermanente. É seu trabalho de uma vida inteira mantê-la a seu lado. Não que ela seja infiel. Ela nada deve a você. E precisa ser continuamente afagada, alimentada, aquecida pelo seu prazer de viver. Sem ilusões, ela não aceita promessas futuras e só recebe o que você tem para dar. Agora.
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Adorei. Aqui tem os slogans da Coca-Cola desde 1886!
por Ângela Broilo
8:01 AM
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Domingo, Janeiro 19, 2003
É um homem com uma barba. Chapéu de abas largas. Calça arregaçada na canela. Pés descalços. Camisa solta no corpo. Ele tava ali na praça do centro da cidade, o pé apoiado num banco, olhando pra longe, pra lugar nenhum. O rosto tem maçãs salientes, olhos puxados, nem moço nem velho. Imagine um homem do campo de antigamente. Faça uma imagem, porque eu também não conheço nenhum. Imagine que esse homem viajou no tempo e veio parar no século XXI, mas ainda não sabia que era uma viagem sem volta. Imagine um quadro onde o mundo surge em meio-tom e um personagem apenas se destaca. Assim estava o homem na praça. Sem ele perceber, fiz uma fotografia. Ruim demais. Mas, de qualquer forma, roubei a imagem pra sempre. Mostrei pro Eliseu, que adorou aquilo. O Eliseu mostrou pro Beto. E o Beto levou pruma cidadezinha lá do fim do mundo, onde tem um escultor fantástico. Hoje esse homem mora na minha sala. Ele é todo de madeira, uma madeira escura, é lindo de olhar. Tão lindo, que até dói.
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Coloquei um Guest Map aí do lado! Vai lá e deixa sua marquinha! ;o)
por Ângela Broilo
12:05 AM
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Sábado, Janeiro 18, 2003
Danielle
Entrei na sala e encontrei o Léo socando a parede com as duas mãos. A Ana tava lá também, só olhando pra ele.
- Que que aconteceu, Léo?
- Tô com raiva daquele cara! Tô com raiva!
- Que cara?
Ele não respondeu, foi a Ana que falou:
- O tio da Danielle.
- Já chegou?, perguntei.
- Não, a mãe dela tá ali. O tio fugiu.
- Deixa que eu falo com ela, Léo, ofereci.
Foi meio engraçado, porque eu nunca tinha visto alguém com tanta raiva assim lá dentro. Fazíamos aquilo todo dia, eu fiquei três anos ouvindo vítimas e supostos agressores. O Léo não era tão novo assim no negócio. Acontece que o tio havia estuprado a sobrinha de seis anos. A menina era linda. Cabelos cacheados, olhos azuis, rostinho redondo. O que doeu nesse caso foi o estado da menina. Em função do trauma, ela havia regredido de tal forma que parecia um bebê. Ora era uma menina normal, ora ficava encolhida em posição fetal chupando o dedo. Nesses casos, quando era possível, ouvia-se a criança. A Danielle relatou tudo o que aconteceu. Você tem que ter estômago para aquilo e, se não tiver, tem que fazer de conta que tem. Sei lá, acho que, no fundo, a maioria faz de conta. Enquanto o Léo ficava lá socando a parede, fui falar com a mãe. A Danielle estava junto, chupando o dedo, encolhidinha na cadeira. A mãe indignada com a fuga. Acontece que tínhamos pedido a prisão preventiva do sujeito, mas o juiz negou. Segundo a mãe, agora a Danielle estava usando fraldas de novo. A cada dia regredia mais, quase um bebê completo. A cada dia, estava mais distante de ser uma menina normal. Talvez nunca mais fosse uma menina normal. Nunca mais. Alguém tirou isso dela. E depois fugiu.
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Fatos como esse ocorriam todos os dias. Acho que ocorrem ainda. Faz quase dez anos que não estou mais nesse meio. Tempo demais, ainda bem. Mas, na época, dizia-se que esses casos vinham à tona quando aconteciam com crianças pobres como a Danielle. Mas que não ocorriam apenas com as Danielles. Estudos de países desenvolvidos mostravam que isso acontecia também entre pessoas das classe social elevada, só que as situações eram abafadas, os criminosos nem precisavam fugir. Aqui no Brasil não havia nada. Mas por que seria diferente?
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Não condeno o juiz que negou a preventiva do tio da Danielle. Mas isso já é assunto pra outro post. A quem estiver lendo, prometo não exagerar com posts do gênero, ok?
por Ângela Broilo
12:01 AM
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Sexta-feira, Janeiro 17, 2003
Papo de Bar II
Lá no Bar de Baco, todo mundo pensa que o Luciano tem problemas. É um sujeito boa pinta, tranqüilo, bem sucedido. Tem 37 anos, bom gosto pra música e sabe beber vinho. A restrição do pessoal é com as companhias femininas do Luciano. Ele é apaixonado por garotinhas. Suas namoradas têm no máximo 15, 16 anos. Garotas legais, bonitas, bom papo. Mas tem gente já associando o Luciano aos pedófilos mais pervertidos. Os homens também, mas principalmente as mulheres. E elas estão dando o maior gelo no Luciano, faz um tempo já. Mas esses dias aconteceu uma situação interessante. A Carmem fez 34 no mês passado, com cara de 20. E apareceu no Baco com um garoto de uns 17, 18 anos. Menino com corpão de atleta, tudo bem que não conhecia muito de vinho nem da vida, tinha um vocabulário insano... Mas e daí?, disseram as amigas da Carmem. Só por que é mulher não pode sair com um homem mais novo? E acolheram o garoto. Admiraram a Carmem. Deram a maior força. Pois é. O mundo tá engraçado. Porque o Luciano, até agora, continua no gelo.
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Ganhei o award da SkyNews. Valeu, Denis!
por Ângela Broilo
8:02 AM
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Quinta-feira, Janeiro 16, 2003
Fernanda
Eu vi chegando uma mulher alta, pálida e bonita. Uma beleza, posto que grande, bastante discreta. Ela disse que seu nome era Fernanda, ao mesmo tempo em que me entregou a carteira de identidade. Fomos para a sala de audiência. Era minha segunda semana de estágio na Coordenadoria das Promotorias Criminais. Chegando lá, vi que a identidade dizia Luís Alberto alguma coisa. Perguntei se a vítima era o marido. Ela riu e levantou a blusa. Estava sem sutiã. Tinha seios pequenos e uma mancha roxa logo acima de um deles. Foi a polícia, ontem à noite, ela disse. Em duas semanas, eu já tinha tido contato com muitas vítimas da polícia. Impressionante o que você ouve, o que você vê num lugar como esse. Só para esclarecer: nosso maior número de expedientes era de crimes cometidos por policiais, estelionatos e estupros de criança. Mas a Fernanda estava lá me olhando. Eu disse Ok. Sempre fui assim, a coisa me sensibiliza ao extremo, mas por fora não aparento nada. E pedi a carteira de identidade dela.
- Está aí!, ela apontou o documento que eu tinha posto sobre a mesa.
- Sim, mas esse é do...
- Sou eu, Luís Alberto aí no papel...
- E Fernanda?, comecei a entender...
- É... Me conhecem por Fernanda.
- Ah! Certo... Bom, Fernanda, pode abaixar a blusa, me conta tudo e depois vou encaminhar você pra exame de corpo de delito...
Ela fazia ponto na rua e aí veio a história da brutalidade policial igual a muitas que já tinha ouvido. Sei lá. Passados tantos anos, dá uma tristeza isso... Não foi possível fazer muito coisa, difícil obter prova, identificar o agressor, essas coisas... Uma pena, porque vida de prostituta já é dura. Ser prostituta, travesti e ainda apanhar da polícia, poxa! O que me faz lembrar do caso, entre tantos outros, foi aquela beleza quase sofisticada, interessante pela simplicidade. Não estivesse ela na rua, em atitude tão óbvia, o mané agressor teria tratado a Fernanda por senhora, juro que teria.
por Ângela Broilo
8:17 AM
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Quarta-feira, Janeiro 15, 2003
Papo de Bar
Conheço o Mark F. lá do Bar de Baco. Tudo que você quiser saber sobre vinhos pergunte a ele. Têm mais sabor suas palavras que um Porto de safra. Sou fascinada por gente assim, com paixões de uma vida inteira. O Mark F. faz parte de uma Confraria há mais de vinte anos, o mesmo tempo em que é noivo da Flávia. Outro dia o Mark contou a história da Marina. Tava todo mundo querendo saber que fim tinha levado a Marina, sumida há mais de seis meses. Pois é. A Marina foi morar na praia, numa casa velhinha que herdou da avó. Diz que a casa é de madeira e tem frestas que deixam passar o vento, no inverno é frio pra danar. E ela, que via fantasmas no Baco, agora conversa com os fantasmas daquela casa. E conta histórias interessantes. Lá tem um fantasma que adora bossa nova. Agora a Marina dorme ao som de João Gilberto, ela tem uma enorme bondade no coração, quer ver seus fantasmas felizes. Fim de semana, o Mark foi pra praia. Ele e a Flávia encontraram a Marina de pijama em um bar da avenida, comprando casquinhas de siri e queria embalar pra viagem. Ela disse que o seu fantasma tava a fim de uma cervejinha com siri, o tadinho fazia trinta anos que não experimentava. Uai, por que tu não trás ele aqui?, perguntou a Flávia. Diz a Marina que ele não sai de casa, tem fantasma assim, com fobia social. Então ela convidou o Mark e a Flávia pra conhecer seus fantasmas e pra um sirizinho com cerveja. Eles disseram que ficava pra outro dia, coisa e tal. A Marina insistiu e já estava se ofendendo, quando a Flávia explicou o motivo: os fantasmas do Mark só bebem vinho. Aí a Marina entendeu, gosto de fantasma não se discute.
por Ângela Broilo
8:05 AM
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Terça-feira, Janeiro 14, 2003
Cena de Filme de Terror ou Pesadelos em Ressaca de Tequila
Dia de sol. Sol forte. Calor. Sensação térmica de estar fazendo turismo no inferno. Quando o suor ultrapassa a barreira das sobrancelhas, para pingar nos olhos a situação é crítica. Ao mesmo tempo em que enxerguei a pulseira caída no chão, ouvi o grito. Um grito de terror vindo das profundezas de lugar nenhum... Isso simplesmente não combinava com um dia de Sol, portanto acho que, em parte, meu subconsciente ignorou o aviso que poderia conter. Lembrando agora daquele momento, era como se todos meus antepassados tivessem se movido um centímetro no caixão pra me avisar: -Afaste-se! Vá para longe. Não mexa com o que não é de sua conta. A culpa foi do Sol brilhante e do calor infernal. Não tinha como ignorar a pulseira de ouro caída no meio da rampa de concreto da garagem. Ela brilhava. E acho que me chamou: -- Ei, moça! Estou aqui! Sou um sonho, o seu mais terrível pesadelo e acabo de iniciar. Dê o start. O start foi juntar a pulseira. Quando recolhi a jóia do chão, era como se tivesse em minha mão o bracinho pulsante de uma criança. Pequeno, morno e... sangrando. Sangrando, porque fora amputado recentemente... Sangue... meu Deus! De novo aquele grito e agora pude perceber que ele vinha de mim... mas era como se minha alma tivesse gritado... Eu estava ficando toda suja de sangue e tinha nas mãos o bracinho amputado de uma criança... No pulso, um relógio da Mônica fazia tic-tac, tic-tac, tac-tic, tac-tic... No relógio, a menina dentuça abriu um enorme e dentuço sorriso... O ponteiros começaram a andar para trás, para trás... Longe, longe... Senti minhas pernas tremerem... quis soltar o braço, mas já era tarde, já era tarde, eu fui fisgada pra dentro de lugar nenhum.
por Ângela Broilo
8:08 AM
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Segunda-feira, Janeiro 13, 2003
Ganhei o award da Carol! Brigada, Carol! Adorei!
por Ângela Broilo
6:47 PM
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Fadinha, eu quero...
Enchi a sacada de plantas verdes. Não quero flores. Quero a ilusão de uma floresta selvagem. Também tenho um aquário enorme na sala e um barulhinho de água correndo. E livros. Essas são minhas necessidades materiais imediatas. Não preciso de muitos bens de consumo para ser feliz. E não é falta de ambição. Gosto de viver bem. Mas tenho outros sonhos hoje em dia. Não falo de nada espiritual. Seu aspecto é material também. Só que não se compra em lojas. E não se ganha de presente. É uma situação, no mínimo, interessante. E tem solução. Vamos à luta.
por Ângela Broilo
12:38 PM
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Domingo, Janeiro 12, 2003
Tá chegando nas 2000 visitas. Se for você, avisa preu saber! O contador tá lá embaixo.
por Ângela Broilo
1:24 AM
Comentários:
A vida assusta vez em quando. Vez em quando soterra sonhos, explode esperanças, parte em cacos essa segurança enganosa do dia-a-dia... Vez em quando a vida chega, leva a tranqüilidade pra onde nem sei. Aí eu lembro, ainda está tudo bem, problema é quando, vez em quando, a vida resolve descansar em paz.
por Ângela Broilo
1:20 AM
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Sábado, Janeiro 11, 2003
Amo meus livros. Fazem parte da minha história de vida. Por isso, se eu te emprestei, devolve, sim? Tenho uma biblioteca em mãos de amigos... O problema é que nem sei mais onde está o quê. Já tomei mil vezes a decisão do egoísmo. Não empresto mais. Nem pensar. Sem exceções. Mas a vontade de dividir as delícias da literatura sempre leva a melhor. Aí empresto. E, pow, me dou mal a mais das vezes. Será que só meus amigos são assim esquecidos? Esse ano, vou comprar de novo o que perdi. Junto com essa compra, vou adquirir um bloquinho. Emprestei, seu nome vai pruma lista com data e tudo. Não devolveu, vou cobrar. Putz! Será que vai dar certo?
por Ângela Broilo
10:48 AM
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Sexta-feira, Janeiro 10, 2003
O Velho do Baco
Todos os bares têm seus esquisitos. Todos os velhos bares têm seus velhos. O Bar de Baco é exceção. O velho do Baco é fiel às sextas-feiras. Ele bebe vinho com seus jovens amigos e vende poesias, que compõe compulsivamente. Cita Rilke para provar que é poeta de verdade, daqueles que não conseguem ficar sem escrever. O texto é violento como seu rosto. O velho é calvo e tem a face recortada pelas rugas, as estradas que percorreu na vida ficaram marcadas por ali. O problema é que a poesia do velho você compra se ele gostar de você. Ele oferece o "produto", mas se, durante a "venda", não for com a sua cara, ele diz "ôpa, não tem mais". A maioria esquece o assunto, afinal era mais um chato vendendo poesia de botequim... Mas tem aqueles que insistem:
- Como não tem? E essas aí?
- Essas estão reservadas para o Assis.
- Quem é o Assis?
- Você não conhece o Assis?, pergunta e bate em retirada.
Ninguém compreende as antipatias do velho, porque, às vezes, ele vende com prazer para um bêbado inconveniente e recusa a venda para uma menina educada e toda linda. Eu penso que entendo um pouquinho. Ele não é lindo nem educado e foi um bêbado a vida inteira. E aqueles versos toscos são a única oferenda que o velho faz a si mesmo.
por Ângela Broilo
7:26 AM
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Quinta-feira, Janeiro 09, 2003
Ganhei o award da Las Nada A Vê. Adorei, Josi!
E esse é o award das Maluquetes. Valeu, Piradinha!
por Ângela Broilo
8:59 PM
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Equilíbrio. É preciso ter equilíbrio. Nem tanto ao céu, nem tanto à terra. Faz tempo que esse conceito me causa um certo estranhamento. Sinto que o império da mediocridade nasceu do equilíbrio. Os prudentes, os moderados, os chatos são equilibrados. A igualdade é equilibrada - que sem graça o invariável! - a fertilidade está justamente nas diferenças. A paixão não é equilibrada, nem a felicidade, nem a sedução, a arte, o amor de verdade. Por que ter como ideal uma vida assim tão equilibrada?
por Ângela Broilo
7:55 AM
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Quarta-feira, Janeiro 08, 2003
Ganhei o award do DiNovo! Valeu, Teka!
por Ângela Broilo
9:46 PM
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Estéril é uma palavra triste. A incapacidade de gerar a vida literal ou figurada dá uma sensação de escassez... É a aridez em todo o seu explendor. Seca, limpa, mórbida. Uma das maiores satisfações da vida é a possibilidade de produzir, dar existência, pro-criar. Uma forma de prevenir a esterilidade é apreciar os frutos da gestação humana. Não acredito que um ser vivo possa ser estéril se trouxer para a sua vida um pouquinho que seja da boa literatura, música, vinho e amizade.
por Ângela Broilo
8:37 AM
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Terça-feira, Janeiro 07, 2003
(Na falta de assunto que preste e...)
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Já que hoje é Dia do Leitor, uma palhinha sobre blogs.
Entre os blogueiros, rola essa onda de falar mal dos awards. Quer saber? Eu acho award um negócio muito legal. É um carinho de quem oferece e uma honra pra quem recebe. Já vi o pessoalzinho dizendo que quem oferece award só quer link no blog alheio. E daí? Pra mim, é bonito alguém desejar um link no meu blog e uma satisfação alguém querer me premiar. Dos blogs que eu admiro, quero awards sim. E linko e quero links. É interessante, é amoroso e tem a ver com integração.
Esses dias, vi num blog (não lembro mais qual é) um critério de avaliação, entre outros que o autor tinha elencado: a simpatia do blogueiro. Achei genial. Tem a ver sim. A técnica perfeita é algo profissional. O blog, em essência, é amador (palavra que vem do latim, amatore: o que ama, o que faz por prazer, entusiasta, apreciador). Pelo próprio amadorismo, não premia quem pode, premia quem quer. Isso é válido e tem cara de blog: viva a descontração, o prazer de blogar, a comunicação liberada. Tá esnobando os awards? Vai com tudo também! Nesse mundo dos blogs, você é livre pra fazer o que quer.
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E olha aí o award da Renatinha - especial - ela é uma menina cheia de poesia!

por Ângela Broilo
7:53 AM
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Segunda-feira, Janeiro 06, 2003
Tem algumas imagens que me perseguem. Uma delas é a mulher que sangra por todos os poros. Ela é coberta de sangue. E tem cabelos escuros. A essência vital vai fluindo pela pele. Os olhos negros e as unhas não estão cobertos de sangue. Todos os detalhes do corpo são nítidos. Aqui e ali o sangue é mais escuro, ora mais claro. Ela não caminha, flutua. É um ser notívago, triste e belo. Sua alma é solitária agora. E as lembranças confundem-se com os sonhos. Gosto da mulher que sangra. Porque, apesar das lágrimas, é uma imagem de liberdade.
por Ângela Broilo
11:45 AM
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Domingo, Janeiro 05, 2003
Tem um novo pianista no Bar de Baco. Ele é sério e bebe whisky. A música que ele toca emociona até os bêbados. O Leonardo chorou. Foi uma noite longa e gostosa. Bebemos pela saudade dos que se foram e dos que se vão. Que a vida é repleta de morte e a morte só pensa na vida. Que a saudade dói, dói, dói demais... E que é amargo ficar... Bebemos também pela música, pela poesia e pela boa literatura... e pelo prazer de beber, que ninguém é de ferro... Quando o Leonardo parou de chorar, bebemos a Baco e aos bacanais que existiram e por um tempo repleto de prazeres carnais, por que não? O Paulo e a Teresa foram embora mais cedo. Nós ficamos até o fim. Esse ano quero beber a vida até o bar fechar. Que o Baco merece. Eu e você também.
por Ângela Broilo
10:59 AM
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Sábado, Janeiro 04, 2003
O imutável sempre me surpreende. Não que exista o imutável realmente. Mas a aparência do imutável a mim causa mais estranheza que a mudança em si. O dinamismo da vida é natural. Por isso, fico surpresa ao chegar em casa e encontrar os objetos exatamente como foram deixados. Não sei o que minha mente esperava, talvez que eles tivessem comemorado o ano novo dançando... Gosto daquelas histórias infantis em que os objetos ganham vida. O Soldadinho de Chumbo é fascinante. Seguido fico a imaginar o que os objetos sentem, o que diriam, quais seus anseios, suas dúvidas, as reações. Sem modéstia, penso que minha casa diria "Viva!" ao me ver chegar. Uma coisa é certa. Adoro viajar, mas gosto igualmente de voltar para casa. O conforto do mundo que é só da gente tem algo de maternal.
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Ganhei o award da Anni! Valeu!
por Ângela Broilo
11:18 AM
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Quinta-feira, Janeiro 02, 2003
Olha que lindo o award que a Dy mandou! Brigada, Dy!

E esse é o award do Cicinho! Muito louco! Amei! Valeu, Cicinho!
por Ângela Broilo
9:21 PM
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Férias X
Amanhã estarei voltando para a realidade. Hoje quero terminar de ler O Idiota. Não sei se vai dar tempo. Dostoiévski escreveu este livro em meio a crises de epilepsia, viagens e dívidas de jogo. Sobre a obra, ele colocou: A idéia do romance é uma idéia minha antiga e querida mas tão difícil que durante muito tempo não me atrevi a colocá-la em prática... A idéia central do romance é representar um homem positivamente belo. No mundo não há nada mais difícil do que isso, sobretudo hoje. Todos os escritores, tanto nossos quanto... europeus, que se propuseram representar o positivamente belo, sempre acabaram se dando por vencidos. Porque esse problema é imenso. O belo é um ideal, e o ideal - seja nosso, seja o da Europa civilizada - ainda está longe de ser criado. Acrescente-se que, para Dostoiévski, só Cristo é uma personagem positivamente bela. Quem não leu, vale a pena. A leitura é leve e prazerosa. E quem já leu, é bom reler. A Editora 34 lançou o primeiro livro traduzido diretamente do russo.
por Ângela Broilo
1:23 PM
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Quarta-feira, Janeiro 01, 2003
Férias IX
Ontem eram sonhos de algodão, hoje tenho sonhos de metal. As buscas tëm um ponto de partida e enxergam a linha de chegada. Mas ainda existe uma realidade originada dos sonhos de ontem, os de algodão, o amor que sinto por ele, o amor que ele tem por mim. Se, hoje, em mim, só existem sonhos de metal, que entre nós floresçam sonhos de algodão. Cada vez mais leves, cada vez mais fortes, coloridos. Que renasçam sempre como nasceram.
por Ângela Broilo
12:27 PM
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