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Angel 7000
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Sexta-feira, Fevereiro 28, 2003


Perdão!
Outros casos posso até perdoar. A vida é imperfeita, os humanos cometem erros. Todos nós temos alguma coisa que não cheira bem. Às vezes, é preciso compreender a maldade alheia, relevar, dar mais do que receber, amar mais que ser amado, colocar-se no lugar do outro, ceder, prestar auxílio, socorrer, se importar. Quem sabe?... Mas eu condeno, julgo e quero que se danem:
- Gente que maltrata animais.
- As empresas que estão devastando a Amazônia
- Os rascistas.

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Quinta-feira, Fevereiro 27, 2003


Felipe
O que o Felipe pensou quando decidiu despir-se e entrar no mar nu como veio ao mundo, todo mundo estava tentando compreender. Certo, eram seis horas da manhã. Ok, ele não viu ninguém por perto. Mas era uma praia em plena cidade, nada afastada, nunca deserta. Uma mulher estava na janela, ficou indignada com a falta de pudor do meu amigo e chamou a polícia, que prendeu o Felipe.
Fosse outro, ninguém estranharia. Fosse qualquer outro. Mas logo o Felipe, um cara tímido, totalmente intelectual! Quando saiu da cadeia - a noiva pagou a fiança - o Felipe não explicou a atitude pra ninguém. Não que alguém, além da mulher dedo-duro, tenha alguma coisa a ver com isso. Mas, no Bar de Baco, as notícias voam. E, depois de beber um aqui, outra ali, o Felipe se abriu. Disse que acordou tão bem naquele dia, assim com uma luz dentro do peito... Uma luz que veio substituir a nuvem negra que tinha sempre por perto. Por isso, sentiu-se em paz com o mundo. Como se ele, Felipe, pertencesse ao todo e o todo lhe pertencesse. Uma viagem! Mas ele diz que realmente se sentiu dessa maneira. E estava de cara limpa. Então, pensou no mar e na perfeição da vida que ele representa e em como somos todos carne e matéria. E, como tudo que existe, não deixamos de existir jamais, porque nos transformamos em outra coisa qualquer nesse mundo. Gente, animal, pó, lixo, água, ar, pedra, vegetal, terra.... e assim por diante.
Naquele dia, o Felipe teve um insight e sentiu-se livre de suas amarras. Decidiu banhar sua felicidade inteira no mar. Sem vergonha de ser. Sem desgosto. Sem dúvida. Nesse mundo de hiper-realidade, não lembrou que a maioria das pessoas ainda sentia e pensava como ele no dia anterior. Por isso, foi retirado do mar de sua existência. No entanto, aquela luz, contou baixinho, permanecia ainda com ele, não tão brilhante, não tão estranha, não tão nova, mas sempre iluminando um pouquinho do seu dia-a-dia.
Aí entendemos que não era a nudez em si nem o exibicionismo que aquele homem calado buscava, era a vida em sua plenitude.
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Hoje estou postando também no Blog do Eddy. Assunto: blogs.

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Quarta-feira, Fevereiro 26, 2003


É uma ponte de concreto sólida, forte, indestrutível. Em todas as etapas da minha vida, vejo a imagem dessa ponte. Num cenário noturno. As colunas que a sustentam pelo meio são arredondadas. E é larga a ponte também. Mas não tem nenhuma proteção lateral. Não que se faça necessária... Mas seria um auxílio, pois a tentação de chegar no limite e ficar assistindo a água furiosa se debatendo entre as pedras, lá embaixo, é muito grande. Para pessoas como eu, com fascínio por altura, atração irresistível pela água, a tentação é maior ainda.
Algumas vezes, passo pela ponte correndo e tenho pressa, nem observo o ambiente em torno, porque é certo que o trajeto será prazeroso. Outras vezes, levo um tempo imenso para atravessá-la e, se pudesse, se a vida fosse mágica, jogaria tudo na possibilidade do retrocesso. Nessas ocasiões, olho para trás, e só avisto a neblina, nada mais consigo ver. E não retorno, porque o risco do regresso seria a própria vida.
E tem o tempo dos desejos impossíveis, nesse tempo vejo a mim mesma tentando construir asas para voar sobre o rio, asas que, afinal, não me sustentam nem sustentam meu sonho. O tempo que se perde desejando, implorando ao nada pelas asas, desenvolvendo sua estrutura enganosa, tentando voar como os pássaros, é desperdiçado. E pedaços de vida se perdem. Inutilmente. Não há como atravessar se não for caminhando, um passo após o outro, evitando pisar em falso nas beiradas, o que não é difícil, porque a ponte é sempre larga demais.
Ao andar na ponte, seu percurso só existe à frente. Você não consegue voltar atrás. Não pela ponte. Essa jornada - a do retorno - eu já percorri. E ali não tem pontes, nem atalhos, nem civilização. Ali, há montanhas rochosas e íngremes, o frio do inverno e o calor do deserto a enfrentar... São caminhos difíceis, porque estão deteriorados e já foram percorridos, usados, descartados. E essas pontes que vejo e esses atalhos só se deixam vislumbrar uma vez. Nesses caminhos sem pontes, você passa por torturas ... E, se for forte e persistente e louco o bastante, alguns retornos você faz, outros são impossíveis, porque, para estes, o caminho já não existe mais.
E quando a imagem da ponte surge em sua vida, é uma imagem sombria, já que nela muitos deixam suas sombras... Mas não é uma imagem triste. Sempre há algum conforto do outro lado da ponte. Pode ser logo ali ou quilômetros adiante... Mas existe a recompensa, porque existiu a ponte e você a atravessou.

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Terça-feira, Fevereiro 25, 2003


Dicionário da Série I hate Bush

Com I - O Bush é um...
Imperialista adj (imperial+ista) 1.Partidário do imperialismo, a política de expansão e domínio territorial e/ou econômico de uma nação sobre outras.

Com J - O Bush pratica o...
Justizmord sm (al) 1.Condenação de inocentes à morte.

Com L - O Bush é um...
Ladrão adj + sm (lat latrone) 1. Que, ou aquele que, de qualquer maneira fraudulenta, se apodera do alheio; defraudador, espoliador, esbulhador, despojador.

Com M - O Bush é o...
Mal-americano (mal1 + americano) 1. Doença infecciosa e contagiosa, transmissível à descendência. 2. Sífilis.
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Legal! O Blogs Templates deu o Destaque da Semana passada pro Angel 7000. Valeu, Luma! Adorei.



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Também ganhei o award do Shumor. Valeu, Shu!



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E ainda o award do Ed! Tks, Ed!


BlogEd Award

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Segunda-feira, Fevereiro 24, 2003


Assédio Sexual em Miniatura
Vi uma menina sábado no Bar de Baco que eu juraria ser a menina do Chico. Faz quatro anos já que isso aconteceu. Mas poderia jurar que era a própria. O Chico... bom... o Chico..., a primeira coisa que se percebe nele é a aparência. Não dá pra ignorar. Beleza que pára o trânsito se o motorista for mulher. O típico moreno de olhos verdes, mas ele tem tudo lindo. Corpo de atleta com boca, nariz, cabelo, pele, voz perfeitos. O que mais? Tudo. Tem gente assim. Que nasce, sei lá, perfeita. É bom de olhar pro Chico. E é bom estar com ele. É um cara tranqüilo, bom papo, mente aberta, viajado, cheio de histórias pra contar. Fotógrafo dos melhores, hoje o Chico não mora mais no Brasil. Mas há quatro anos, ele estava aqui e nos presenteava com sua companhia lá no Baco. Uma noite, devia ser mais de dez horas, entra pela porta a garotinha, cerca de treze anos. Carinha de anjo e bonitinha que só ela. Fica parada ali na entrada, olhando pra nossa mesa, e logo depois começa a fazer sinais, chamando uma pessoa - o Chico. Passa o garçom, deve ter perguntado o que ela queria. A garota cochichou alguma coisa, escreveu um bilhetinho com a maior categoria, caneta cor-de-rosa na folha da agendinha. O garçom chega na nossa mesa e entrega o torpedinho pro Chico, que ficou chateado com aquilo. Dispensou o garçom sem dizer nada, pegou o celular e discou um número. Aí ele fala com uma tal Rosana, fala "olha, sua filha tá aqui no Baco, acho melhor você vir pegar ela, que eu não vou levar pra casa de novo..." A mulher disse alguma coisa e ele: "É... não depois da última vez." Quando desligou o telefone, tava todo mundo esperando o Chico esclarecer. No início, ele até tentou desconversar, mas não teve jeito e contou.
A mãe da menina, Rosana, morava ao lado da casa do Chico. Mas foi sua amiga de infância também. Explico: ele vivia na casa que fora de seus pais, e a Rosana, depois da separação, voltou pra casa da mãe dela, trazendo a filha, Cristina. Assim, foram vizinhos desde sempre, com um intervalo de uns cinco anos, o tempo em que a Rosana ficou casada. Com essa amizade, o Chico sempre era convidado pros aniversários da menina. Mas o problema tinha começado mesmo no ano anterior, no aniversário de doze anos da garota. Ela encasquetou que queria dançar com o Chico. Ele adora crianças e foi com o maior prazer. Dançou com a Cristina e com as outras meninas, tirou fotografias, conversou com os adultos. Depois disso, pela manhã, na ida para o trabalho, o Chico encontra a menina, que pediu uma carona para ir à escola. "E o teu ônibus?", perguntou. "Eu perdi", disse a garota. E assim foi uma semana, até que o Chico ligou pra Rosana. A Rosana, claro, não sabia de nada, mas contou uma coisa que deixou ele espantado. A Cristina estava apaixonada e só fazia falar do Chico. A mãe não sabia mais o que fazer pra conter a pestinha, pegou a garota de binóculo espionando a casa dele, interceptou cartinhas, ralhou e xingou. Pensava que estava acabado. Agora ficava sabendo que a coisa tinha só começando. Ia colocar a Cristina de castigo. Mas, como toda mãe separada, carregava uma grande culpa pela falta que o pai fazia... O Chico nem soube o que dizer, depois logo esqueceu. Só não ia mais dar carona pra garota. Então começaram os telefonemas. E os e-mails. A menina ligava pro Chico o tempo inteiro, no estúdio, em casa, no celular, uma loucura. E os e-mails entupiam a caixa de correspondência. Ele disse que pedia pra garota parar com isso e ela era só juras de amor eterno. Nem aí pro que o Chico falava. A coisa toda, disse o Chico, começava a assustar. Porque, dois dias seguidos, a garota fugiu de casa e foi parar no estúdio do Chico, no outro lado da cidade. Fazer o quê? Duas vezes, ele teve que largar tudo e levar a menina pra casa. O Chico é muito boa gente. Depois dessa, a Rosana deixou outra vez a garota de castigo, diz o Chico que ela chegou a chorar, não sabia mais como conter a menina. O Chico quase chora junto, porque a garota tava deixando ele maluco e a coisa até começava a pegar mal. E aí ela fez pior. O Chico acorda no meio da noite e pensou que estava tendo um pesadelo. Sentiu uma coisa estranha, abre os olhos, alguém beijava sua boca. A Cristina tinha entrado em sua casa durante a madrugada. Até hoje, ele não sabe como. Bom, com essa, o Chico perdeu a paciência. Pegou a menina pelo braço, levou ela pra casa e intimou a Rosana. Nunca vi o Chico brabo, nem imagino como seria... Mas funcionou, porque, dia seguinte, a Rosana liga se desculpando, falou que ia se mudar, única forma que via pra segurar a filha. Já ia pro quarto mês que a coisa tinha começado. O Chico disse que teve pena, mas não falou pra ela ficar, respondeu que era o melhor a fazer. Ele devia estar incomodado, porque, normalmente, costuma ser aquela pessoa que se preocupa com o bem-estar dos amigos. Mais um mês, ele teve que agüentar a menina aprontando e, depois, a Rosana se mudou mesmo. Fazia quase dois meses que o Chico não via as duas. Estava livre da garota . Nunca mulher adulta o importunara tanto e olha que o Chico tinha muitas namoradas. Ele pensou que, não sendo mais vizinhos, estaria longe do assédio... Até aquela noite... Como podia a pestinha saber do Bar de Baco e que ele estaria lá aquela hora? Nós não tivemos o que dizer. Até o Mark, que sempre vinha com solução pra tudo, ficou pensativo. Depois não sei mais o que aconteceu. Ano seguinte, o Chico foi pra Inglaterra e, nas ocasiões em que ele veio pra cá, eu nunca toquei no assunto. Agora, a menina deve ter uns dezessete e, se era ela sábado no Baco..., puxa! Fosse eu homem e bonito, ficaria com medo. Olhando pra Cristina hoje, ninguém adivinha, ainda tem a mesma carinha de anjo.
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Esse post também tá lá no Copy-Paste.

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Sábado, Fevereiro 22, 2003


Poder
Entre as imagens que me perseguem, tem essa montanha de pedra. Sempre que a vejo, estou lá embaixo, contemplando a montanha na sombra. O sol encontra com a pedra no lado oposto. Adiante, há outros montes, o céu azul, outras imagens, as que me deixam em paz. Essa montanha é uma visão que impressiona. Ela tem um vão pelo meio, na forma de um vê invertido, é assim um triângulo isócele que rasga o monte de cima a baixo.
Percebo essa imagem como sinto o poder no mundo. Todo a força é acompanhada por certa fragilidade inerente. Força da pedra, debilidade do vão que a atravessa... Mas a instabilidade é equilibrada pelo conhecimento oportuno de seus próprios vãos ordinários. E pela aceitação de cada um. Embora a vaidade flerte com o poder, ela não o conquista. O que a vaidade domina já não é mais poder, porque este, ao ser subjugado, se perde nos desvios do não ser.

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Sexta-feira, Fevereiro 21, 2003


Adoro peixes, meu aquário é grande e abriga uma boa variedade deles. E tem alguns anfíbios também, as rãs albinas. Eles convivem no aquário, todas essas raças e espécies diferentes. Mas não é bem uma convivência pacífica. Há um hábito desses animais que demorei a assimilar, eles comem o vizinho, vivo ou morto. Mesmo que você tenha cuidado em não misturar espécimes agressivas e pacíficas, tem uma hora em que isso acontece. Essa semana, comprei uma pequena rã e coloquei no aquário. Dia seguinte, cadê? Foi devorada viva por um lindo peixe vermelho, com cabeça branca e cerca de quinze centímetros de comprimento. Não, eu não poderia prever. Nem pensei nisso, estavam todos bem alimentados, e as outras rãs alegres e fortes. Só que elas já habitavam o lugar antes desse peixe chegar. Mas não o culpo. Ele é o mais belo de todo o aquário. E oferece o que eu quero, muito mais do que aquela rã. Tem beleza, inteligência e nenhuma compaixão. Com essas qualidades, é amado por nós.
A vida não é mesmo justa. Conheço pessoas como esse peixe. Ninguém cogita livrar-se delas, apesar de suas perversidades. Não é que sejam indispensáveis. Mas sabem oferecer o que os decisores estão desejando. Se destroem alguns sapos pelo caminho, pobre dos sapos. Só nos contos de fadas, são consolados pelas princesas.
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Ganhei o award da Maria Berger, do TopBlogs Brasil. Valeu, Maria. Adorei!


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Quinta-feira, Fevereiro 20, 2003


É aconchegante estar no Bar de Baco quando chove lá fora. Sinto que estou num mundo à parte, aprazível como vinho seco. Porque a chuva traz fantasmas ao Baco, aqueles que não freqüentam suas mesas nas noites sem nuvens. Vejo lá meu amigo Marcos, com seu sorriso irônico, sua alegria inconseqüente; vejo o Fernando, que se foi, regado a Balzac e cocaína. Vejo o fantasma que carrega a dor da minha saudade e ele está curvado, molhado, exaurido, mas tem os olhos abertos ainda. Vejo lá fantasmas que carregam meu sangue, o sangue que usei e chorei e já não quero ter, o sangue que se esvai pelo chão, livre da carne, livre. E vejo os fantasmas que nasceram das alegrias que desperdicei, dos amigos que perdi no caminho, dos amores que nem sei. Desses fantasmas todos, não tenho mais dores, que dessas já estou amortecida. Mas tenho, para com eles todos, a obrigação de viver a vida com mais verdade, sorrir os sonhos novos. Mais que compaixão, ter amor. E, mais que esperança, ter respeito pelo meu presente, que se apresente com beleza ou fealdade, não importa, mas que seja minha carga, minha recompensa... não dos fantasmas. Não mais.
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Esse blinkie a Clarissa fez pra mim. Valeu, Issa. Adorei!


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Quarta-feira, Fevereiro 19, 2003


Castro
Tem essa velha praça central, com chafariz e tudo. Tem esse encanto decadente... Essa praça não é singular. Você pode vê-la nas áreas centrais de muitas cidades. Essa praça tem pombos, algum verde, muita sujeira, bancos gastos, seus velhos, suas prostitutas, seus moleques malvados, os cães doentes, os bandidos de pouca monta, os tarados. Todos assíduos. Porque a praça é deles. É seu lar na urbe escaldante. E todas essas velhas praças têm suas vítimas. É a menina que passa apressada, arriscando um atalho, e tem sua intimidade violada por mãos ligeiras. São muitas senhoras que não respeitam a privacidade dos habitantes da área e têm bolsas cheias e nenhum juízo. São homens desavisados, com carteiras magras, mas que servem para alimentar o desespero dos donos do lugar. E tem outras tantas vítimas... mas não são elas que me levam à praça em dias insones, o que me atrai para lá são os loucos. Essas praças sempre têm loucos com histórias de terror para contar. Loucos que bebem cachaça e vestem andrajos e vivem de esmolas. O que me prende a essa praça é o Castro. Antes de ser mendigo, o Castro é louco. Foi louco a sua vida inteira, portanto, antes de ser um bêbado, o Castro foi louco.. Mas o Castro me fascina mais que a pouca vergonha da praça porque ele é um louco com dois cachorros. E trata seus cachorros como filhos. Com carinho de pai zeloso. Um deles branco e preto, aparentemente, saudável. O outro acinzentado, já com sarna na altura da pata esquerda. Um pequeno foco da doença impertinente. Algumas vezes na semana, passo por lá. Não chega a ser uma obsessão minha o Castro. Não chega a ser nada. Mas passo por lá e converso com o louco, o tempo que os bandidos permitem, o tempo calculado para que ninguém se ofenda... Nunca mais de cinco minutos, nunca menos de dois. E levo alguma comida, nunca demais, para não despertar a cobiça dos moleques, nunca de menos, que não sobre para os cachorros. Porque o Castro não come antes de dar comida aos animais... Claro, se você for inteiramente cínico e não tiver poesia alguma na veia, vai desconfiar que o Castro gosta mais da cachaça que de comida. É uma verdade. Mas ele gosta dos cachorros mais que de cachaça. Gosta mesmo. O dia em que deixei o Castro feliz foi quando levei de presente um saco de ração para os cachorros. Naquela tarde, ele me mostrou uns papéis encardidos, com "seus desenhos". O Castro tem mania de dizer que é artista. Ele tem cabelo longo, uma barba grisalha e fica o tempo inteiro sentado embaixo de um cobertor em farrapos, mesmo sob o calor de quarenta graus. Em volta, está o saco com seus pertences... e os cachorros. Os desenhos... eram caricaturas do próprio Castro e esboços dos dois cães. Provavelmente, algum desenhista se comoveu com a figura exótica do louco e deu-lhe um pouco de arte para enfeitar a miséria. Outras vezes, me apresentou fotografias de um passado improvável... e repete frases sem nexo, numa cantilena imperdível. Pois é. Me comovo com o Castro. Mas teve o dia em que senti uma dor funda na alma... Naquele entardecer, encontrei o Castro sentado no local de sempre. Mas alguma coisa faltava. E os cachorros, Castro?, perguntei ansiosa. Eles levaram..., disse o louco com o olhar esgazeado, olhando pro nada, acariciando o cobertor. E então aconteceu que aqueles homens perdidos, aquelas mulheres da vida, aqueles donos da desgraça, aquele gente menos que gente, foram, aos poucos, se aproximando, rodeando a mim e ao Castro, todos falando ao mesmo tempo... alucinados de raiva e..., será que fantasiei? de compaixão?..., maldizendo não sei que Dido e seu irmão, não sei quem são, que, numa brincadeira infame, furtaram do Castro os cachorros. E, naquele instante mágico, a tristeza imensa do louco era a dor de toda a gente. E aquela gente menos que gente, os tarados, os malvados, as vendidas, os bandidos, os desgraçados sentiam a mesma dor que senti, a mesma fúria homicida que me abalou a razão... fomos um só, naquele dia, a amar nosso louco mendigo, a chorar por ele, um homem viralata que só o que tinha de seu era o amor por dois cães.

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Terça-feira, Fevereiro 18, 2003


Tânia
Conheci a Tânia lá no Bar de Baco. É uma menina linda. Gentil. Bem humorada. O tipo de pessoa que você quer ter por perto nas horas boas e ruins. Ela sabe sorrir e chorar com você. Namora o Pedro há uns dois anos e vão casar em maio. E foi a tal festa de casamento que causou todo o problema. A Tânia sempre foi gordinha, desde criança. Ela é uma mulher grande, alta... Mas nasceu fofinha, cresceu fofinha, teve a primeira menstruação fofinha, o primeiro beijo, o primeiro homem e conheceu o amor da sua vida assim mesmo. E o Pedro gosta da Tânia gordinha. Tá bom, gorda mesmo. Só que ele nunca pediu pra menina perder peso, não. Mas a Tânia encasquetou com o vestido de casamento, quer entrar na igreja magrinha... E começou uma dieta o ano passado, em outubro, novembro... Desde então, não a vi mais no Baco. Ontem, o Pedro apareceu triste, abatido... tinham quebrado o pau no fim de semana. Diz que a Tânia mudou completamente. Ela parou de comer e de sorrir. Antes, fazia uns jantares fantásticos em casa. Ela cozinha como ninguém. Nem isso mais. O Pedro até tinha se conformado... ele não é chato pra comer. É aquele tipo de pessoa que come qualquer coisa e tudo bem. O brabo é conviver com o mau humor da Tânia, ele desabafou. O que ela perdeu de cintura, perdeu de alegria. É engraçado. A privação de alimentos provocou, na Tânia, a privação do prazer. Contou o Pedro que a Tânia magrinha chora por qualquer coisa, berra com o telefone quando toca e é malvada com o gato. A briga não foi por nenhum desses motivos. Começou porque, no sábado, o Pedro quis fazer uma surpresa pra Tânia. Era aniversário de namoro dos dois e ele reservou uma mesa no melhor restaurante da cidade. Nem lembrou que a Tânia tinha pedido pra não comer fora até a data do casamento, apenas quis repetir o que fizeram nos últimos aniversários. Mas a Tânia está fazendo terapia e acusou o Pedro de querer sabotar a sua dieta. O terapeuta avisou que isso poderia acontecer. Bom, esse foi o início da briga. Que continuou no domingo, quando a Tânia avisou que iria fazer uma cirurgia. O Pedro quase teve um colapso. Então ela estava doente e não tinha falado nada? Só que a Tânia, apesar de cada dia mais magra, estava com a saúde perfeita. A cirurgia era pra colocar silicone nos seios. O Pedro disse que olhou para aquela mulher como se a estivesse vendo pela primeira vez. A Tânia não estava mais gorda. Em alguns poucos meses, se transformou num mulherão... e só domingo ele percebeu isso. Ela vestia uma calça jeans muito justa, como nunca antes, um top curtinho, a barriguinha bronzeada. O cabelo, que sempre tinha sido um encanto, agora estava com um novo corte, uma cor diferente. Lindo mesmo, se derramava pelas costas, disse o Pedro. Com o rosto mais fino, os olhos cresceram, as maçãs ficaram salientes... O Pedro olhava, olhava aquela mulher desconhecida e linda, uma pantera furiosa que gritava e xingava... E ficou se perguntando onde estava a sua Tânia, onde estava aquela menina meiga e macia, que, nas noites frias, aquecia seus sonhos, bebendo vinho no Baco.
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Tá. Tô feliz com o Blog of Notes! Valeu, bloggerman! E valeu pessoas que visitam aqui... Sinceramente, o mais legal de um blog são os comentários. Confesso. É por isso que tenho blog. Pra ter comunicação com o pessoal. Sem eles, deixaria os textos no Page Maker.

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Segunda-feira, Fevereiro 17, 2003


Me incomoda essa atitude conciliatória que permeia a vida hoje. Me desagrada. É como aquela comida deliciosa que você ingere até se empanturrar. Depois de exagerar, ela fica insuportável. Temos um exagero de regras pregando o saudável, o harmônico, o belo, o positivo. Nada contra o positivo em si, tudo, absolutamente tudo, contra esse exagero do positivo. Ele é doce demais. Ele não admite dúvidas. O positivo é o indiscutível, o inquestionável. Eu preciso também do negativo para poder viver. Eu preciso das minhas dúvidas, das minhas incertezas, dos meus descaminhos, preciso das minhas lágrimas, das minhas aflições, dos pesadelos, porque, sem isso, sou apenas metade de mim. E esse exagero do positivo acaba fazendo com que ocorra uma depreciação e um estranhamento em relação às tantas imperfeições que formam, junto com o todo, a verdadeira essência do ser gente. O que vejo de mais perigoso nessa supervalorização absurda é o fato de que o positivo se dirige, inexoravelmente, ao pólo negativo. Isso na química. Não menos na vida. E o negativo é o que vai ao encontro do positivo. Por isso, hoje já não me assusto com minhas sombras. Elas são parte de mim. E, se o sol me alimenta, elas me nutrem também. Da vida, quero o pacote completo. Não aceito menos. Nem pensar.
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Parênteses. Acho perfeito o título de um dos blogs da Lu, o Imperfeições. Fecha.
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A Paty, do Marromeno tá com uma campanha pela paz, com esta imagem:

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Domingo, Fevereiro 16, 2003


Dicionário da Série I hate Bush
Com E - O Bush é um...
Empulhador adj (empulhar+dor2) 1.Tapeador. 2.Embusteiro. 3. Que ou aquele que engana.

Com F - O Bush é um...
Futre sm (fr foutre) pop1.Homem desprezível. 2. Sujeito sem dignidade e sem decoro.

Com G - O Bush é um (futuro?)...
Genocida adj (geno+cida) pop1.Pessoa que comete delito contra a humanidade, visando a desintegração de grupos humanos, por motivos raciais, religiosos, políticos, econômicos, etc.

Com H - O Bush é...
Hórrido adj (lat horridu) 1. Medonho. 2. Horrendo. 3. Cruel.
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Depois das manifestações pela paz ocorridas ontem, quem sabe a situação se altere. Espero que sim. Tinha decidido não postar nos domingos, mas, como esse post é do Dicionário I hate Bush, foi hoje mesmo!

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Sábado, Fevereiro 15, 2003


Fim
Das imagens que me perseguem, tem esse barco. É um barco de madeira decrépito,com o casco arruinado, flutuando no abandono, sobre um lago tão sereno que mostra-se estático. Uma floresta compacta forma uma meia lua nas cercanias do lago. Na orla oposta, o que margeia o lago são montanhas de pedra. Uma delas está coberta de neve por inteiro, outra só o pico impõe-se congelado... O céu é azul escuro, um azul tão denso que parece quase artificial. Interessante o contraste do azul escuro do céu com o verde sombrio da floresta. E o lago reflete, em cores, esse cenário gelado. Sobre a água verde-azulada, o barco e o que resta de seus remos flutuam. E, como se tudo estivesse aguardando o acontecimento, as águas começam a girar em torvelinho, rápido, cada vez mais rápido... O movimento veloz e espiralado, em pouco tempo, conduz o barco em ruínas para o fundo do lago. E, na mesma velocidade..., a paisagem inteira se acalma. O barco agora são pedaços de madeira em decomposição. Úmidos e porosos..., quase liquefeitos, se acomodam nas profundezas, ajustando-se tão bem ao ambiente em torno, que se imagina nunca terem saído dali. E passam-se horas, dias, anos..., e o barco se torna em lago...e agora pode navegar como nunca o fizera antes. Sentindo essa imagem entranhada em meu ser, experimento o que sentiria o barco... e é sublime desfazer-se...para tornar-se no todo.
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Ganhei o award da Bárbara! Valeu!



2:13 PM Comentários:


Sessão Reclamação
Hoje, o Blogger aprontou de novo! Aquele problema de não deixar o usuário se logar!... Que coisa... O Weblogger tb não deixa por menos... Sempre visito o blog de quem comenta, mas, de novo, não consigo entrar em alguns blogs do Weblogger... Fim da sessão reclamação. Ponto.
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Hummm! Logo, logo o Angel terá 3000 acessos. Se for você, não esqueça de avisar! ;o))
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A Lulu me enviou por e-mail. Tudo a ver.


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Sexta-feira, Fevereiro 14, 2003


Dicionário da Série I hate Bush

Com A - O Bush é portador de...
Agnosia sf (gr agnosía) 1.Med. Perturbações intelectuais que impedem a pessoa de compreender a natureza das coisas e a significação de um fenômeno, embora seus órgãos e vias sensoriais fiquem intactas.

Com B - O Bush é um...
Boofilo sm (gr boûs, boi+filo3) 1. Zool. Carrapato transmissor da doença chamada tristeza.

Com C - O Bush é um...
Capilária sf (lat capillaria) 1. Verme alongado e fino, da família dos Tricurídeos, 2. Espécie de parasita de vertebrados.

Com D - O Bush é um...
Desassisado adj (part de desassisar) 1.Louco. 2.Imbecil. 3.Demente. 4.Maníaco. 5.Desvairado. 6.Desatinado.

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Quinta-feira, Fevereiro 13, 2003


Saudosismo
Faz cerca de um mês que encontrei o Zeca no Bar de Baco. Ele estava pensativo, assim distraído, quando perguntou:
- Sabe do que eu tô sentindo falta?
- Do frio, das férias, da sua mãe..., respondi.
- Não... Sinto falta do Merthiolate como costumava ser...
- Como assim?
- Ardido... Não arde mais...
- Mas eles melhoraram a fórmula... Pelo menos, foi o que ouvi dizer...
- Pode ser, mas não arde mais...
- E daí? É até melhor...
- É nada. Quando ardia, você sentia que estava fazendo efeito. Agora, parece que não tá funcionando... Poxa! Até água oxigenada arde um pouquinho...
- Tá, mas...
- Não tem mas.... É como beber Coca-Cola transparente...
- Então passa água oxigenada, uai!
O papo se encerrou aí, mas o Zeca continuou melancólico.
Pois é. Acontece que hoje cortei o dedo. Um cortezinho de nada. E fui passar Merthiolate... Quer saber? O Zeca tinha toda razão.

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Quarta-feira, Fevereiro 12, 2003


Tem gente que sabe contar piadas. É um dom. O Mark é assim. Lá no Bar de Baco, quando está inspirado, ele faz a gente rir a noite inteira. O Horácio é diferente. Só pra esclarecer: ele não é muito assíduo no Baco, mas quando vai, ocupa a nossa mesa. E temos uma regra de boa convivência: se você não sabe fazer as pessoas rirem, não as faça chorar. Ou, não conte piadas, seja um bom ouvinte. Só que o Horácio não respeita esse costume... Ele não pode ouvir uma piada que já requisita a sua vez de contar. É triste. Chega a ser tragicômico. Alguns dão aquele sorriso amarelo, verde, sei lá, não só por educação, mas por pena mesmo. Outros acabam se concentrando no vinho, nas paredes, na música... O Horácio nem percebe, porque, ao finalizar suas ¿piadas¿, ele começa a rir às gargalhadas. Então tá... Mas, esses dias, o Luciano chegou ao Baco com uma prima, a Maria Lúcia, que mora na Bahia e estava de férias por aqui. Moça muito simpática, alegre, extrovertida e, de acordo com o Luciano, de uma bondade que só ela... A moça teve o azar de conhecer o Baco com o Horácio lá dentro... Uma desgraça, mas fazer o quê?... Qual não foi a nossa surpresa quando a Maria Lúcia começou a rir com vontade das piadas do Horácio... Que coisa! Antes até parecia ser uma moça inteligente, mas, a partir daí todo mundo começou a duvidar de sua sanidade mental. E..., acredite ou não, inclusive o Horácio, que, ao invés de vibrar com o sucesso que fazia, foi ficando sem graça, sem jeito..., e, abracadabra!, aconteceu: ele esqueceu das piadas que desejava contar e o Mark ficou livre, pra felicidade geral. Ontem, o Luciano abriu: naquela noite, o Horácio fora atrás dele no banheiro e perguntara, indignado, por que raios a Maria Lúcia zombava tanto dele! O Luciano não soube o que dizer, enrolou o Horácio, mas, pra nós, ele admitiu: o defeito da Maria Lúcia, desde criancinha, sempre foi aquele excesso de bondade...

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Terça-feira, Fevereiro 11, 2003


Embriagada
Se você for ao Bar de Baco e prestar atenção nas pessoas que povoam o recinto, a Isabela não vai chamar sua atenção. Ela senta nos bancos próximos ao balcão do bar, num canto ao lado da porta da cozinha. Ninguém deseja ocupar esse lugar, assim como não desejariam ocupar o espaço dela no mundo. Porque a Bela é uma mulher que bebe... Toda noite ela está lá sorvendo destilados como se fossem água. E, às vezes, ela sai do Baco com algum homem qualquer, cheio de intenções lúbricas, ela sem intenção nenhuma, anestesiada pra vida.
A Bela quase não fala... quanto mais bebe, mais calada se torna. E, se menciona alguma coisa, são palavras bêbadas, vindas de um passado remoto para um presente passado sem consciência nenhuma. As dores de cabeça diurnas, o mal estar físico, o corpo que rejeita alimentos e grita por álcool a cada segundo, a Bela afoga em silêncio no mar noturno do Baco.
Ela mora num prédio em frente e todo fim de noite atravessa a avenida sem enxergar o movimento em torno. Nesse sábado, um carro atropelou sua desesperança. O saldo foi um braço quebrado e alguns hematomas perdidos. Mesmo assim, dia seguinte, a Bela estava lá no seu cantinho bebendo, o membro na tipóia, o olhar no horizonte entorpecido de lugar nenhum... , os pensamentos, quem sabe aonde, quem sabe?...

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Segunda-feira, Fevereiro 10, 2003


Fernandez
Ontem, o Luís e eu conversávamos sobre rotina lá no Bar de Baco. Eu, que não consigo ter rotinas na vida (este blog é a última tentativa), defendia a dita, enquanto o Luís reclamava da maldita. Foi aí que aconteceu um fato rotineiro no Baco. O Fernandez reclamando novamente do vinho. Fernandez, o pesadelo dos garçons. O horror. Uma vez, o Mark pediu pra provar o vinho que o Fernadez devolveu. Não foi surpresa pra ninguém: estava excelente. E eu tô pra ver um cara que entenda mais de vinho que o Mark. Mas, raramente, o Fernandez devolve o pedido. Até que é um bom freguês se for analisar (apenas) a freqüência e contabilizar os pedidos. O problema é quando o garçon se arrisca a argumentar. Porque o prazer do Fernandez não está na bebida, na comida, no ambiente, nos seus companheiros de mesa. O Fernandez tem um prazer bizarro: a reclamação. Ele se entrega ao deleite do protesto, reivindica, com luxúria, direitos inexistentes, esbalda-se na queixa, esbanja impropérios. Não sei bem como é conversar com o Fernandez, gostaria de tentar por mera curiosidade. Aí, ficamos a imaginar, o Luís e eu, como seria a rotina do Fernandez:
Fernadez acorda pela manhã e dá um grunhido.
Fernandez olha para o seu rosto no espelho e debate consigo mesmo: reclamar com Deus ou com a mamãe?
Fernandez embaixo do chuveiro: óbvio, impossível acertar a temperatura.
Fernandez não toma café da manhã porque sua mulher não admite reclamações. Então, que graça tem?
Fernandez, naturalmente, adora o trânsito, ali ele está em seu elemento, pode protestar e ainda ter razão.
Fernandez chega no trabalho. É diretor financeiro de uma empresa que não vou citar o nome. Pois é..., o Fernandez adora o que faz. E é odiado por todos, mas fazer o quê? Ele é um dos sócios... Agora, só por maldade, o Luís e eu ficamos a imaginar o Fernandez trabalhando no departamento de compras. hehehe. Ou no controle de qualidade... bah!
Seguindo a rotina, nas quartas e sextas-feiras, do trabalho, o Fernandez vai pro Baco. Ele costuma levar uma pequena platéia junto, nunca levou a esposa.
O que não conseguimos conceber é o Fernandez cumprindo seus deveres conjugais... Não dá pra imaginar. Impossível, porque ele é casado há um tempão e diz que, perto da esposa, o sujeito se transforma. Não faz uma queixa. Quem contou foi um sócio dele. É por isso que ficamos imaginando um Fernandez diferente ao lado da mulher, um homem assim melancólico, meio sorumbático, reprimindo seus desejos mais iminentes... Ao lado da mulher, só posso ver um Fernandez triste. Mas, nas outras circunstâncias rotineiras, no trabalho, no Baco, vivendo o dia-a-dia em nosso país atormentado, pródigo em situações absurdas, chegamos à terrível conclusão de que o Fernandez... é um homem feliz.

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Domingo, Fevereiro 09, 2003


Hoje não vou postar... Só amanhã.

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Sábado, Fevereiro 08, 2003


Homem com alma de mulher
O Paulo sugeriu que eu elaborasse um post sobre o assunto. Ele viu o termo em um artigo escrito por uma mulher, que dizia que "este era um sonho de consumo feminino e que estava em extinção". Não cheguei a ler o artigo, mas discordo do termo utilizado pela autora, na verdade expressões mais ou menos parecidas têm sido referidas no universo das publicações femininas. Considero essa expressão "homem com alma de mulher" e congêneres, no mínimo, inadequadas... A primeira coisa que pensei: essa pessoa está querendo o quê? Supervalorizar a mulher ou diminuí-la? Tá tudo errado. No meu entender, homem tem que ter alma de homem. Mulher tem que ter alma de mulher. Um não é mais do que o outro. Não mesmo. Existem homens canalhas e homens de caráter. Mulheres canalhas e mulheres de caráter. Esse é o ponto, Poxa! Homem tem testosterona pra caramba, é diferente da mulher em muitas coisas, tem uma qualidade linda que se chama virilidade, tem características muito legais e ninguém fala mais delas. Mulher é diferente do homem, tem uma certa delicadeza, suavidade, resistência e tantas coisinhas próprias de mulher... e ninguém mais fala disso sob pena de cometer um pecado mortal contra o feminismo... Agora, nos termos das nossas revistas femininas, homem tem que ter alma de mulher. E mulher tem que ter o quê? Alma de homem?
O que gera esse tipo de visão distorcida é o fato de que ainda não existe a tão reivindicada igualdade de direitos. Ainda temos problemas com o machismo misógino dos homens pobres de inteligência e de espírito. A mulher ainda tem dificuldades, em sua vida afetiva e profissional, com esse tipo de homem. Não dá pra negar isso. Por melhor que seja o seu ambiente, qual é a mulher brasileira que nunca foi "agredida" de alguma forma, em algum momento?... Aquele homem que faz comentários obscenos na rua, por exemplo... isso é nojento! Bom, eu não gosto. Sinto como uma agressão, viola minha intimidade, invade meu espaço, rouba um pedacinho da minha tranqüilidade. E tem o problema das mulheres machistas também (assunto pra outro post). Enfim, tem tanta coisa que acontece... mulher com maiores aptidões ser preterida numa promoção por indivíduo do sexo masculino, grandes empresas que não contratam mulheres para os altos cargos executivos, o assédio sexual, a grosseria gratuita, as piadas de mau gosto... Mas isso tudo não quer dizer que todos os homens, em sua masculinidade, são seres execráveis e que seria melhor se tivessem "alma de mulher"... Ora, existem as diferenças entre o homem e a mulher sim. E essas diferenças não tornam um indivíduo superior ou inferior a outro. Diferença não gera - ou não deveria gerar - desigualdade de direitos. Em minha intimidade, quero conviver com homens gentis, educados, inteligentes e, também, viris, másculos, enérgicos, interessantes, corajosos... Outra: meu homem abre a porta do carro pra eu entrar, segura a porta do elevador... eu acho isso lindo. Gosto de ser afagada, mimada, cuidada... que diabo, gosto disso, e não quero que ele mude. E também aprecio coisas nele que eu não tenho, a força física por exemplo. Isso me atrai sim. Muito. E daí? Quer dizer que não existe igualdade? De forma alguma. Igualdade, pra mim, é respeito, consideração e apreço pelo indivíduo, pelo ser humano, independente de ser homem ou mulher, independente de suas preferências sexuais, religiosas e políticas, independente de sua raça, idade ou profissão. Isso é igualdade. Igualdade é respeitar o masculino e o feminino de cada um, é poder ser homem ou mulher em toda a sua complexidade sem ter que adotar padrões pré-estabelecidos ou idealizados... é ter o direito de simplesmente ser humano... podendo vivenciar todos os prazeres e todas as dores de existir.

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Sexta-feira, Fevereiro 07, 2003


Bomba Bush

Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroxima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
(Vinícius de Moraes)


Enquanto os Estados Unidos fazem essa estúpida guerra de nervos a respeito da guerra que vão cometer de qualquer maneira, eu não consigo e não quero esquecer da Rosa sem Rosa, a Rosa de Hiroxima. Será que o país que lançou a "rosa radioativa" não lembra mais ou apenas finge não lembrar? Existem outras formas de solucionar problemas financeiros. O problema do mundo hoje se chama George Bush, uma bomba atômica obcecada e fora de controle.
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Ganhei o award da Elleina! Valeu, Elleina!


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Quinta-feira, Fevereiro 06, 2003


Pra você desejar alguma coisa, é preciso primeiro ter um impulso relacionado a ela e depois não ter esse impulso satisfeito.
Isso esclarece porque a comida é mais gostosa quando você está morreeeendo de fome.
Isso explica porque as empresas de lingerie vendem cada vez mais.
Isso mostra que a publicidade ainda é a alma do negócio.
E confirma que, infelizmente, os joguinhos de amor ainda funcionam. E muito bem.

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Quarta-feira, Fevereiro 05, 2003


Vida Dura
Eu não dou dinheiro pra criança em sinaleira. De jeito nenhum. Nem pra flanelinhas. Um porque tem adulto por trás, outro porque é extorsão indireta. E acabo me sentindo extorquida também pelo governo. Ontem minha alma pesou. O garotinho chegou pedindo uma moeda. Com uma carinha... que fiquei sem ação. Mas dei um saquinho de biscoito pra ele. O garoto agradece e começa a chorar, um garotinho pequeno mesmo, sete, oito anos no máximo, e você via que ele estava tentando segurar o choro; perguntei o que tinha acontecido. E ele, chorando:
- Me robaram cinco real.
- Quem roubou? Os outros garotos?,
perguntei.
Ele fez que sim, e as lágrimas corriam. Fiquei pensando no esforço dessa criança pra conseguir aqueles cinco reais, já que ele pedia por moedas. E ontem estava quente, um calor insuportável, imagine todo dia ali, na sinaleira, sob o sol escaldante. Aí ouvi uma buzina, olhei pra frente e o trânsito já estava lá adiante. Arranquei. O garoto ficou lá chorando, com o saquinho de biscoito na mão, a outra mãozinha limpando as lágrimas. Senti uma dor no coração, uma vontade de ter pegado aquela criança no colo, proteger contra esse mundo bandido... Então, me veio a idéia. Fiz uma volta enorme, hora do pique, e voltei praquela rua... acho que levou uns 20 minutos. O garotinho tava lá ainda, encostado num carro, com outros dois garotos, da mesma idade ou ainda menores. Chamei e ele veio correndo. Aí fui direta:
- Me conta essa história direitinho e te dou dez reais!

Ele começou a ensaiar um soluço... Eu disse:
- Ah, ah, assim não...
Ele sorriu, sapeca, e disse:
- É, dona, a gente chora e fatura mais...
- Muito mais?
- Iiiiih!, muito mais! Ontem uma véia deu cinqüenta! ele fez. Agora dá os dez?
- Dou, mas me diz: quem te ensinou isso?

Ele riu:
- Ninguém não, eu que tive a idéia, mas nenhum deles - apontou os outros meninos - consegue como eu. Hehe! Qué vê?
Começaram as buzinas. Nem liguei.
- Quero.
Em menos de 20 segundos, ele tinha lágrimas nos olhos e chorava mesmo! Dei quinze e mais um monte de moedas. E fui embora. Queria não ser tão dura... queria não ter adivinhado aquilo, queria ter visto menos coisas na vida e poder dar dez reais pra um menino que chora. Fico imaginando o sorriso que ele dá de presente pras donas que se comovem com a atuação. Acho que, depois de ver aquele sorriso pós-choro, elas vão pra casa com o coração leve, a consciência tranqüila, a satisfação de ter deixado uma criancinha feliz. Eu pagaria cinqüenta reais, quinhentos acho, pra ter essa inocência de volta. O mundo tá tão duro que, não basta os adultos, agora até as crianças estão vendendo suas lágrimas. E pior: aprendem a fazer isso antes de completar uma década de vida. Afinal... desde os primórdios, a necessidade tem sido uma grande professora.

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Terça-feira, Fevereiro 04, 2003


O mentiroso oficial do Bar de Baco é o Eliseu. Gosto daquela definição pra mentira: o engano da alma. Combina com o Eliseu, porque ele não faz mal pra ninguém. Ele acredita no que diz, tem plena convicção. Se o Eliseu fosse testado num detector de mentiras, até com a mais deslavada, ele passaria. É um homenzinho elétrico, baixinho, magrinho, parece um mosquito. O Eliseu já bebeu o vinho mais velho do mundo, pegou todas as mulheres lindas do Baco e é milionário, não, bi. O carro dele, bom, ele anda com carro popular que é pra não ser seqüestrado. O gozador perguntou: Cadê os seguranças, oh Eliseu? E ele, sem titubear: Você não está vendo, não é pra ver mesmo. Mas tão aqui dentro, de olho, de olho! E colocou o dedo indicador embaixo do olho direito pra reforçar a afirmação. Pois é... é sempre assim. Só que, ontem, aconteceu uma coisa estranha. O Eliseu contava como foi a posse do Lula, em detalhes, porque ele tava lá, na posse, ali, quase ao lado do presidente, ali ó! O Eliseu, pra quem ainda não sabe, é amigo íntimo do Duda Mendonça. Essa da posse o barman, que nunca se mete, não agüentou: Mas você tava aqui naquele dia da posse, homem! Eu lembro bem, foi o dia que aquela mocinha, aquela ali ó, te deu trela e tu ó! Virou o dedo indicador pra baixo na cara do Eliseu, logo o barman que costuma ser tão delicado. Mas tudo bem, é público e notório: quando acontece isso, o Eliseu tira de letra e ainda retruca com uma mentira mais cabeluda ainda; se a vítima, indignada, reage, ele segue mentindo, num jogo de ping-pong aloucado, até cansar o interlocutor. Minto. Tirava de letra. Ontem o Eliseu ficou vermelho, cor de vinho e emudeceu. Eu não acreditei no que vi. Ele sentou, junto ao balcão, e ficou olhando praquela moça que não era uma das mais lindas do Baco, aliás nem mais linda nem linda. E a moça falava com a amiga e dava umas olhadinhas pra ele. O Mark é sempre o boa-praça: Ih! Vai lá, cara! Tem jeito de boa moça! O Eliseu ficou mais vermelho ainda. Depois que ele foi embora, o barman contou a tragédia pra todo mundo: no dia da posse, o Baco tava quase vazio, tinha ali o Eliseu, a moça com a amiga e o barman. A amiga foi embora e a moça ficou. Aí o Eliseu chegou lá. Pra contar suas histórias. Ele não consegue ficar calado por muito tempo. Diz o barman que a moça, nem tão moça assim, olhava embevecida pro Eliseu, acreditando, com convicção, em cada mentira que ele contou. No começo, o Eliseu ficou extasiado com essa platéia cordata. Mas então foi calando, calando... e deixou a moça falar. Então o Eliseu levou ela pra casa. E logo depois voltou pro Baco. Encheu a cara. Desconfia, o barman, que o Eliseu tá apaixonado, mas não tem nem idéia de como falar isso pra moça, ele já esqueceu como se diz a verdade...
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Segunda-feira, Fevereiro 03, 2003


Papo de bar é assim. Você vai bebendo, vai conversando e as horas vão passando e aí, pow, alguém acaba sempre falando certas coisas que podia muito bem ter guardado para si. E, no Bar de Baco, ainda tem a música e a atmosfera que colaboram pra isso. Dia seguinte, dá vontade de cortar a língua, mas aí já aconteceu. Sábado foi a minha vez. Eu contei, não sei pra que fui contar, foi a tequila, acho que foi. Eu bem que podia ter ficado no vinho... Mas agora todo mundo sabe que o Fantasma da Ópera mora no meu closet. É... Contei isso pra galera. Agora eu fico, assim, sem jeito, mas ontem eu não estava e confessei: eu ainda brinco de faz-de-conta. E o Fantasma da Ópera é uma velha história em minha vida. Na adolescência, não sonhava com o mocinho de filme de ação americano, nem com astro de rock ou o galã da novela das oito (argh!), nem mesmo com o gatinho do último ano. Minhas fantasias eram com o Fantasma da Ópera. Eram, não, meu amor que me perdoe, mas, de vez em quando, ainda tenho uma recaída. Agora talvez não tenha mais. Culpa do Mark. Até o Luciano riu de mim, a Susi lembrou que ele nem tem olhos, só aquelas órbitas escuras, a cara é amarela, ele se parece com um homem morto e, pior, nem fantasma é. Não importa. Eu amo aquele mundo obscuro que ele criou para si e a habilidade incomum do monstro. Foi isso que eu disse ontem. Tá certo, a gozação foi geral e vai continuar por um bom tempo ainda. Mas fiquei pensando no que o Mark falou: acho que você nunca foi apaixonada pelo Fantasma da Ópera, não assim, querendo ser a mocinha da estória e tal (no caso era vítima, né? Hehe!)l, você nem gosta de romance... seu problema é outro, você quer ser o cara, o próprio Fantasma. Pois é. Todos esses anos e eu não tinha pensado nisso. O que mais me irrita é que o Mark tá sempre certo.

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Domingo, Fevereiro 02, 2003


Esta é a história que o Paulo contou hoje. Era uma vez um homem velho que vivia em meio aos cavalos e gostava de tocar gaita. Isso se passou no Rio Grande do Sul. Ele tratava do cavalo do Paulo, o Turdi, e essa é outra história, mas é coisa de não acreditar. Pois o Turdi seguia o Paulo pedindo por afagos. Um cavalo com alma de cachorro. Claro que o Paulo estranhava a quantidade de ração que o Turdi consumia, porções pra três ou quatro cavalos, mas pensava, era um animal diferente e, naturalmente, devia se alimentar de um modo singular. Noite dessas, o Paulo acorda com o Turdi a relinchar na janela. O Paulo levanta meio irritado e vê que o cavalo está seguindo uma trilha e era uma trilha de ração, o glutão acordara para comer e espalhara a ração pelo campo. Afinal, era um cavalo diferente e agia de um modo extraordinário, tudo estava no seu lugar. Mas aí o Paulo percebeu: a trilha saía do galpão, onde o Turdi dormia, e seguia adiante. O Paulo acompanha os vestígios, eram montinhos daquela ração, aveia misturada com outras coisas que nem sei dizer, é parecido com granola, mas é cavalo que come. E isso o levou em direção à casa do velho tratador. Passa pelo portão, entra na propriedade e vê, ali, caído ao lado da casa, um saco enorme com a ração do Turdi. Foi aí que o Paulo entendeu o que o cavalo queria dizer. Acordou o velho, interpelou e ele acabou confessando: além de velho e gaiteiro, era ladrão de ração e roubava à noite que era pro Turdi não contar pra ninguém. Mas como assim, velho?, interrogou o Paulo. E cavalo por acaso fala? O velho olhou fixo para um ponto por sobre o ombro do Paulo, cobriu o rosto com as mãos e choramingou: Esse fala. O Paulo olha pra trás e lá está o Turdi. O Paulo poderia jurar que ele tinha um olhar acusador sobre o velho que chorava.

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Sábado, Fevereiro 01, 2003



Gosto da imagem dos palhaços tristes. É uma coisa linda isso. Um paradoxo encantador. Não sei bem se é o palhaço ou o paradoxo mesmo que me faz gostar dessa figura. A contradição, os conceitos incompatíveis, as opiniões incomuns me divertem. É como pimenta que arde e também agrada ao paladar. São coisas assim, aparentemente negativas, mas como há beleza nelas!... O mar batendo nas rochas é de uma violência indescritível e é belo por isso! Vi um quadro, certa vez, de uma mulher chorando: fiquei paralisada pela beleza. Andar de montanha russa, fazer rafting, assistir filmes de terror, lugares altos... quem gosta, como eu, tira uma satisfação intensa do medo. E tem o blues, os bares escuros, os becos, os sapos, os anti-heróis e certas imagens de pessoas tão infinitamente feias ou com um aspecto tão cruel que atraem meu olhar como para uma obra de arte. De certa forma, não deixa de ser mesmo, pelo inusitado. Por tudo isso, o mundo não é um lugar confortável para mim. Talvez a vida fosse mais leve se o convencional tivesse o poder de me convencer totalmente, se não me seduzissem tantas situações interessantes que exigem um certo desconforto, mas, posso apostar, experimentar a vida de outra maneira não seria tão delicioso como é assim.

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