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Domingo, Outubro 19, 2003


Papo de Bar II

Essa o Paulo contou lá no Bar de Baco. Se você já construiu uma casa, sabe como é duro lidar com todas as etapas da construção... O Paulo está na parte final... Finalzinho mesmo. Isso aconteceu na sexta-feira, final de tarde. Depois de um dia de trabalho exaustivo. Naquele dia, o Paulo ainda lutou jiu-jitsu, é um lutador bom pra caralho, mas aquele não tinha sido o dia dele, saiu do tatame com um dente lascado.
A casa do Paulo fica afastada da cidade, num pedacinho do paraíso, onde você escuta o barulhinho do rio correndo lá embaixo, os passarinhos cantando e só enxerga verde ao redor. Naquele dia, o Paulo chegou lá pedindo água, pedindo cama, pedindo socorro, calor pra danar... Se você já teve uma obra dessas, deve saber como é que é... E o Paulo é cuidadoso... Tem alguns móveis lá dentro, esses dias, ele cobriu tudo com plástico que é pra não riscar quando os trabalhadores circulam com materiais...
Enfim, o Paulo chegou lá nessa sexta-feira, assim cansado, dente lascado... mas aí viu o local e até se animou um pouquinho... o ar puro do local estava uma beleza... resolveu tirar as botas... ele tinha uma havaiana na mala, pegou uma bermuda e uma camiseta que estavam jogadas por lá, foi vestir no banheirinho dos fundos e entrou na casa... quando chegou na sala da frente, viu um carregador colocando um espelho sobre o balcão, um móvel de antiquário que a esposa do Paulo escolheu com todo o cuidado na semana anterior... E o carregador tinha tirado o plástico de proteção que o Paulo colocara para os trabalhadores não riscarem o móvel. O Paulo falou:
- Oh! Meu amigo, esse espelho aí não vai riscar o móvel?
- E alguém te perguntou alguma coisa?Vai querer encarar?
Diz o Paulo que todo o cansaço que sentia evaporou, ficou tão brabo que não enxergou mais nada na frente. Só viu que estava dizendo para o cara sair de lá com o espelho, senão iria jogá-lo pela janela com o pescoço quebrado. Aí apareceu a dona da empresa, a que vendeu o espelho para o Paulo e - pra sorte dela mesma - conseguiu acalmar os ânimos. Enfim... o Paulo contou que o homem, mais vermelho que um pimentão, olhou pra sua chefe e gaguejou:
- Mas, patroa, ele é dono dessa mansão e tá mais esculhambado que eu! Como é que eu podia adivinhar?
...
...
...
Award do TeG!! Adorei! Valeu, Tati!

6:59 PM


Quinta-feira, Outubro 09, 2003


Papo de Bar

Fim-de-semana ficamos sabendo lá no Bar de Baco: o Leonardo, que vivia de galho em galho, finalmente se apaixonou. Por isso, estranhamos quando ele chegou assim todo desanimado, com aquela cara pintada de depressão. Mesmo assim, resolvemos perguntar da nova paixão. Não dava pra segurar.
- Conta aí, Leo... Como aconteceu?
- Você sabe... foi o vinho...
Todo o mundo sabe que o Leonardo adora contar suas aventuras, às vezes conta até demais, então aquela resposta reticente estava meio fora de lugar...
- O vinho? Você estava de porre? - atirou a Flávia.
- Não, não foi isso... Eu conheci a Lara naquela loja de bebidas na esquina da Coronel Viana com a Bento Gonçalves...
- Tá... E daí?
Com a atenção geral, o Leo se animou:
- Daí que ela estava escolhendo um vinho africano... Africano, pô! Eu pensei, como pode uma menina assim manjar de vinho africano?... Então, dois dias depois vi a mesma menina aqui no Baco, bebendo vinho... Fiquei pensando que vinho seria... Perguntei pro garçom... Cara, ela estava bebendo um vinho grego... Aí eu vi que tinha que conhecer essa menina... Vinho grego era provocação! Fui lá conversar com ela. Falamos de tudo, mas eu não estava conseguindo entrar no papo do vinho... Sabe como é? Fiquei sem jeito...
Não consigo imaginar o Leonardo sem jeito, mas tudo bem, ele seguiu contando.
- Então convidei a Lara pra jantar...
- E o que ela pediu? - perguntei.
- Pois é... Um vinho israelense, cara! Isso não existe! E o pior de tudo: estava ótimo!
- E depois?
- Jantamos outras vezes... Não é todo dia que você encontra uma mulher assim...
Nessa altura, o Leo parou de contar e tivemos que pressionar para continuar a história. Afinal, por que aquele ar de tristeza? A moça era casada? Tinha um ex-marido ciumento? Então ele continuou:
- Foi aí que aconteceu: conheci a adega da casa dela... - o Leonardo falou, olhando pra cima, assim meio em diagonal, aquele ar de quem lembra os prazeres vividos - .Me apaixonei...
A Flávia fez a pergunta que todos queriam fazer:
- E anda com essa cara engasgada por quê?
- Sabe, eu vi a adega e fiquei maluco... perdi a cabeça... Cara, eu caí de joelhos, pedi a mão dela em casamento ali mesmo....
- E ela disse não... - completou a Flávia.
- Ainda não deu resposta. Mas está toda desconfiada... Imagine! Disse que não sabe se eu quero casar com ela ou com a adega. - O Leonardo baixou a cabeça e murmurou:
- E pensar que eu quase convenci a Lara...
- Quase?
- É... quase... porque, quando ela disse que ia se livrar da adega pra ter certeza, eu não agüentei... Implorei pra ela não fazer isso... Ia partir meu coração... Cara, que mulher cruel!...

* Criado para a News Letter do Portal Via del Vino.

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